segunda-feira, 23 de abril de 2012

Sonhos, sonhos são (7) Aquele que não era

Fico te sentindo na esperança de captá-lo. A solidão insiste bravamente como o pescador lançado com seu barco a deriva; balança-me soturnamente assustando-me, faz-me sentir suas mãos geladas, enquanto se senta e vai se instalando por aqui. Não há mais dor que possa suportar insistindo no mar, na tempestade que começa em meus pés tomando cada um de meus pensamentos. Não suporto mais partidas, não vejo sentido nelas.
Cada vez que vejo teu caminhar esguio, arrastando os pés pela rua sempre sorridente, recebe-me com um singelo abraço e tudo se desmonta no universo, fecho os olhos segundos em suas costas e vejo o sonho lindo se refazendo. Desfaz-se a realidade a minha volta enquanto nessa eternidade de você o sonho vai passando depressa.
Te aperto com força no meu peito, contemplando teus pesos e incompreensões enquanto vejo a porta que se abre em mim, te levo para uma casa cheia de tudo, com uma varanda de eternos ventos onde contemplo singelos campos dourados e azuis. Continuo segurando-te, e enquanto percebe meus lábios se movimentando lentamente na direção de teu rosto te prendo ainda mais forte por que já alcançou a soleira. Entra sem avisos ou romances, me toma pela mão e faz-me compreender muitas coisas. Conta-me todas as histórias dos acordados, do mundo no qual vieste, dos enfrentamentos e eu te mostro todo um universo guardado. No farfalhar dos matos lá fora, como se um bicho corresse entre eles, meus lábios lancinantes vão refugiando-se, voltando para mim. É quando aqui dentro, sinto os teus me tocarem com ardor, sem medos, culpas ou receios, deixo meus abraços te afagar com carinho e acalento e desse modo, me desfaço de mim.
Estou olhando em seus olhos nesses segundos de eternidade e nem imagina a casa, os matos ou os sons que ocorrem. Teu sorriso desvela o encontro mais intimo de nossos espíritos, abraçados longe de qualquer amenidade faz o contato profundo de mim, comigo. Tuas mãos me tocam e é a chave que abre a porta onde me encontro, abraço-me despido e insisto que ali nada haveria, apesar de estar exangue em lágrimas, fulgurante por reencontrar-me.
Tua voz fala por fora fazendo calar-me. Soturno com tudo que houvera de mim ali nas mãos, na sala vazia e você encostado na soleira imploro para não partir, conversar, permanecer prostrado nesse encontro eterno, mas com sorriso sincero tua cabeça meneia e oferece a mão da partida. Vou saindo lento, outra vez aos pedaços, crente do que houvera, apesar de saber que todo beijo nada mais fora que uma epifania, o toque perene de tuas mãos em meu espírito despertando-me.
O abraço, o beijo e a voz desfez-se e vejo então derreter-te. Todo o dia passou e é hora de estranha partida. Como pudera, penso eu, já que estiveste aqui dentro todo tempo, arrancar-se agora do espírito onde frutificou plantado? As mãos que despertaram são aquelas agora que gélidas, me empurram novamente a experiência fria da solidão, que de soslaio, espera-me logo na próxima esquina.

E mesmo com tudo, ainda não expresso-me. Sinto nesse momento como se sentado em um tanto de dor. Lembrei dos augúrios, de nomes intocáveis, das suas experiências indiscretas e a realidade dá-me o tom da impossibilidade. Deveras. Não há lugar que eu olhe que não te falte. Aqui dentro tudo é ausência, cada coisa me olha lembrando minha estupidez, mas ainda assim, mesmo que clame as mesas, pernas ou portas, nada disso é capaz de abandonar-me, insistindo o barco a deriva que agora se perfura, mas castigado mesmo ao fundo sob o canto da sereia, deve lembrar-se em constante martírio.
Poderia ser o remédio. Ou talvez nem seja. Ou ainda nada disso aconteça, na insistência de um abraço eterno de um santo, quando desmanchar-se, abrirei os olhos em qualquer realidade insistente e muda. Até lá, tudo haverá para além do silêncio.


"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."
- Clarice Lispector

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Sonhos, sonhos são (6) Acordado.

É como uma doce brisa que passa pelo meu corpo. Arrepia-me as entranhas, os ossos, os pelos parecem se descolar da pele, enquanto teu sorriso desmancha-se com absurda brevidade. A fantasia se mistura as carnes, o real fica marcado de impossibilidades e meu pensamento vaga enquanto meu corpo insiste em manter-se firme ao leve toque singelo de tuas mãos de docilidade absurda. É como um sonho que não ousei sonhar. Da varanda, miro a cidade toda se esgueirando, o sol se afugentando em montes, a sombra leve se escondendo preguiçosa, enquanto apreciamos a primeira brisa do inverno que se embarga do teu perfume, teimosamente penetrando em cada pedaço meu. Sinto-lhe como se fosse um remédio capaz de fazer pulsar as veias, ainda que no instante da morte. O teu cheiro me desperta.
Mas não é só isso. Prossegue o teu corpo aproximando-se do meu em lentidão calculada, como um artista que  mira o palco como seu deus e se derrama sobre ele, meu corpo nada mais era naquele momento do que a extensão da tua capacidade de senti-lo, de soslaio, acomete-se sobre ele tacitamente como é do teu feitio, tuas mãos unem-se as minhas no belo ritual divino da amizade enquanto sinto minha alma desprender-se. O toque se transforma na mágica capaz de despertar os risos, as sinceridades, puerilidades insistentes que não nos abandonam.
E aí tudo são os risos, tuas traquinagens, tua capacidade de me desestabilizar. Toco teus olhos com meus lábios enquanto minha mão está no teu rosto, acarinhando, sentindo pulsar cada parte de tua beleza. Não existe mais tempo, varanda ou brisa, tudo transformou-se em nada, escorreu pelos dedos enquanto minha pele estava na tua como em um encontro premeditado. Você ri, se diverte e eu me esqueço de toda dor, rio também, me deixo levar pelos teus sons, imersos em um cotidiano tão leve e completo quando está presente. O deus-menino mais uma vez se manifesta, materializa sua conduta nos homens, talvez por traquinagem ou gosto, faz-nos levar por sentimentos tão intensos e leves, tão frágeis, que tememos falar nele com medo de quebrá-los.
E a cada partida tua é um recomeço. Os dias se transformam com lentidão e paciência, enquanto reviro as memórias, enquanto ouço teus sons, tua voz macilenta. Olho para as coisas que você tocou e desejo guardá-las todas, desejo não te perder de vista, ainda que em face do não acontecimento, do não entendimento, do amor comedido, parece que acontecendo pelo meio, desejo não estar em um lugar que não possa te lembrar.
São muitos os beijos que não valeram o leve tocar de tuas mãos, o teu sorriso comigo, o idilismo dessa experiência. Os corpos que outrora se tocaram em superficialidade jamais equiparam-se a profundidade com que me olha, que me beija nas faces, que me abraça com firmeza. Nada disso importa agora. Insisto em ser eu sem restrições, sem manchetes, sem fases. Insisto na tua beleza sem medo, sem dor, sem culpa. Tua energia expurga o pesadelo, faz-me viajar tranquilo por entre os braços, os beijos e os sonhos, a varanda que descerra soturna na noite a fio que insisto em descrever-te, sempre imbuído finalmente de algo que não está aqui, um sentimento de impossibilidade. Aquilo que não coube. Não ficou na varanda, nos objetos, no quarto revirado. Uma coisa qualquer que eu não sei onde está e mesmo face a possibilidade de não existir, insisto, desenho nas palavras cheias de cores. Fica aqui titubeando, no coração, nas vísceras, na lembrança do arrepio, nas tuas mãos cheias de ternura e nos meus olhos cheios de malícia. No colo que cala-se solitário e que espera que deite-se mais uma vez, na fantasia perene, realização de acordados que quando se encontram, furtam-se e insistem em embalar-se no sono das emoções.



"Pra você guardei o amor, Que sempre quis mostrar, O amor que vive em mim vem visitar, Sorrir, vem colorir solar, Vem esquentar, E permitir..."
- Nando Reis

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Sonhos, sonhos são (5) Uma cidade luz...

Ruas, tortas ruas nas quais eu virava. Uma por uma, revirava a luz e o frio da cidade. Sentia meu coração tacitamente aquecido, lento, eu sorria pelas esquinas de uma cidade de luz matinal. Era perfeita, lá não havia dor ou solidão, o coração estava sempre aquecido - era sem dúvida a coisa mais bonita que luta por sobreviver dentro de mim. É meu oásis em meio a paisagem morta, a flor do cerrado pela qual eu caminhava.
 Esquina por esquina dobrei, caí no antiquário estranho e empoeirado. Eu era guiado por aquela estranha mulher. Mandou que eu me abaixasse naquele lugar desconhecido e para minha surpresa haviam tantos objetos meus escondidos embaixo do móvel. Cachimbos, incensos, velas e toda sorte de artefatos mágicos perdidos ali como um tesouro, acima, nas belas portas de madeira envelhecida, abertas, haviam tantas outras coisas que a meu bel-prazer poderia escolher. Mais tantos outros artigos magísticos, belamente embrulhados parece que esperando pelo dono que era eu.
 Escolhi um tanto de objetos, coloquei numa sacola. Era como se estivesse em outra dimensão, pois apesar de reconhecê-los, eles só existem ali dentro do meu sonho, não se encontram nos comércios ou nas esquinas, não existem para outra pessoa que não fosse eu. A velha mulher límpida de luz me abraçou, beijou minha testa numa riqueza de detalhes tremenda enquanto saía deixando a porta aberta. Eis que entra aquele coração cheio de luz.

 Você estava belo no meu sonho; era sorridente, moço forte e bem apanhado que brilhava para as meninas dos meus olhos. Ali no seu sorriso sincero eu entendia tal qual beleza emanava essa cidade, de onde vinha a luz que ofuscava meus olhos nas ruas. Descobri por que apesar do frio, a pele se desmanchava em brasas, já que era cheios de braços a cidade nos quais me abraçavam naquele instante. Me envolvi no teu perfume, em tua pele, no meu sonho inacabável reclinei minha cabeça no teu ombro e partimos naquele lugar que era tão nosso. Conversávamos livremente, entre abraços de sua pele macilenta e tuas mãos no tocante do meu peito, envolvi-lhe num singelo beijo questionável na face. No meu sonho você não ruborizava e ao contrário, trouxe-me para junto de ti e com verdade beijou-me longamente naquela manhã de inverno.
 Pela primeira vez eu senti um beijo por dentro. Sentia seu toque doce, meus olhos revirarem nas órbitas, sentia teu carinho tão puro e eu pensava que maldade podia haver na beleza daquele beijo. Na cidade luz não havia. Só havia nossos sonhos, meu antiquário, meus objetos, tua grandeza que se desfazia dentro de mim pelo seu beijo, que de tão grande, me entregava sua alma como um presente, pois a minha, já por muito era tua. Sem confusões ou dores partimos.

 Eis que na esquina mais bela, na ladeira de pedras acesas pelo sol matutino, vi caminhar em nossa direção minha deusa sorridente. Eu entendia por fim que aquele era seu presente e nos meus pensamentos, sem que você ouvisse, eu falava com ela. Pedia a ela pra manter vivo esse lugar belíssimo e tranquilo, enquanto te olhava ela meneava com a cabeça entendendo que não era pra te sequestrar de dentro de mim. Pedi a ela que o sonho fosse sonho para alegrar meu dia e que a luz da cidade fosse minha esperança, que seu sorriso fosse o remédio da minha dor e os teus braços fossem a força que necessito pra seguir. E no meio dos meus pedidos singelos, o sorriso de minha deusa íntima fez-nos partir de volta, nos enchendo em um facho de luz, desperto em fim.

Fizeste do meu coração o lugar mais seguro minha senhora. Lá escondo os segredos mais lindos que não conto com medo que se desmanchem e que em meio a dúvida sombria e a falta de esperança, seja ela a força benigna que traz-me de volta. Odoyá que esteja comigo todos os dias e em meio ao sol escaldante, guia-me de volta ao meu sonho cheio de amor e alento. Leva-me para o aconchego e esperança, faz-me sempre experimentar a docilidade que sobrevive nas profundezas de mim. Pois tua grandeza minha mãe, tão cheias de provas e entendimentos trouxe hoje em minha porta aquele príncipe mais belo, que do teu sorriso fez um ribeirão em que pude refrescar a secura dos meus dias. Era o sorriso mais belo, mais profundo. Naquele pequeno, também estava eu.


"Vem do luar no céu, vem do luar. No mar coberto de flor, meu bem
de Iemanjá, de Iemanjá a cantar o amor."

- Baden e Vinícius

domingo, 23 de outubro de 2011

Sonhos, sonhos são (4) - Um deus menino...

Estava parado em uma tarde fria e acinzentada. Estava parado como o ar que havia nela, sentado a mesa, perdido como sempre nos pensamentos distantes, que de tão distantes, se perdem de modo inerte. Revirava devagar um leite em uma caneca, branco como uma nuvem, quente, com vapor que se dissipava pelo ambiente. Sentiu o cheiro do leite e chorou de emoção, lembrando dos dias em que era uma criança, um pequeno menino sentado a mesa, mal alcançava a altura dela em cadeiras de adultos e que do seu lado, como uma santa, sua mãe revirava o leite dentro da caneca, esquentava-o, gritava com ele pra que pudesse vir comer. Quis colocar os pés em cima da cadeira como fazia, olhar pra eles cheios de terra da rua, queria não sentir o frio desolador porque correra por uma tarde inteira atrás de uma bola, porque brincou de pique, porque se escondeu de brincadeira e chorou simplesmente porque esfolou os dedos. Queria não olhar no espelho porque não os alcançava, e quando olhava, ao invés de uma face cansada e temente, via apenas um par de olhos cálidos que esperava sem pressa pelo próximo dia.
Quis tomar aquele leite, correr para a TV e encontrar desenhos animados. Quis ver o pai entrando pela sala, pois mesmo que com um pouco de susto, havia toda uma garantia na sua grandeza que irrompia com seus gestos rudes, podendo olhar pro lado e ver sua mãe devota, sorrindo como sempre fazia, sem denunciar nenhum mal da vida. Poderia partir dali, receber alguns amigos, que deitar-se-iam no mesmo ambiente e brincariam com o medo que tinham dos monstros, contando histórias de horror, das pessoas que voltam dos mortos para nos assombrar, de lobisomens, de homens com cabeça de macaco, mas à saber que elas não duram, pois foram inventadas pelos adultos e que logo, embaixo de cobertores e escuridão a luz se acenderia para contar histórias de meninos levados que sobem em árvores, do dia que espiaram uma vizinha ou que ouviram uma conversa dos adultos, que de tão estranha, lhes seria um belo motivo para risadas.
Deitar-se-iam para um sono bom. Sem comprimidos ou angústias. Os pais estariam por perto, preocupados, ansiosos se ficariam bem, se sobreviveriam uma noite a mais longe deles e os meninos iam rir daquela coisa que ainda não conheciam, pois ali não havia nenhuma angústia. Luz apagada, meia luz de um abajur, um som de grilos cochilando, montanhas do lado de fora e junto com o cão que cessava de ladrar, dormiriam, para correr no outro dia, sentir frio, sede, fome, alento e no fim da tarde, em um copo de leite revirado, ele ia sentir de novo esperança.
O sonho se desmanchava nas borras, lembranças que se desfaziam na imensidão. Por Deus, que lhe restou ainda os pensamentos, as lembranças do afeto mais belíssimo, do cheiro do leite, das compotas, dos pães que se assavam no forno, das casas sem preocupações penduradas nas paredes. Da vida sem agendas, sem calendários, de acordar sem precisar saber do dia. De ver as notícias horripilantes nos jornais sem ligar, pois haveria histórias de dormir que iriam diluir essa dureza do mundo.
Apesar de tudo isso, ele vive só e se emociona quando se lembra. Desse universo, restaram alguns amigos que devem se equivocar da própria nostalgia e como ele duvidam, que tudo isso tenha sido verdade. Só podem crer, quando o vento sopra esse vapor da vida, um perfume, um gesto, quando uma mão tenra lhes toca o rosto, ou quando se ajoelham frente a uma santa para rezar. Só assim tudo acaba existindo, tão grande como um tesouro, mas pequeno o suficiente para caber em um olhar.

As vezes quando me deito, faço orações resignadas e se ouso lembrar, peço a Deus quase em silêncio que me não me tire nada disso. Desejo ter sonhos com esses dias em que corremos livres pelo mundo e que o mundo era todo nosso, que os pés se sujavam e nós agradecíamos.
Quando os sonho, sempre termino vendo o menino sorrir com desdém, por que não acredita nas prisões, nas angústias, não consegue imaginar a solidão, não se convence da tristeza ou dos desacordos; e de tanto não acreditar ele parte, desce os morros, salta mourões, envereda nas montanhas e entra finalmente, no pedaço mais singelo que existe em mim - para que eu não morra, ele fica calado me assistindo e só desperta quando pelo coração é chamado.

"... E me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir... Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade e amor..."
- Milton Nascimento

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sonhos, sonhos são(3) - Na beirada do mar...

Eu estava sentado, escutando o chocalho da ondas... Tinha o cheiro da espuma, da maresia, do mundo que se movimenta no fundo do mar. Era muita areia, uma enseada infinita sem pessoas, carros, objetos. Estava tudo apenas cheio de uma coisa invertida que eu não entendia, pois os peixes nadavam na areia imensa enquanto o mar, distante, ficava vazio. 
Alguém se aproximou lentamente. Meu coração congelava, sentia medo, frio, fome, abandono na beirada do mar bravio que me tragava sem nem mesmo me tocar e por mais medo que tivesse, começava pisar naquela areia que era gelada como a morte. O dia parecia querer nascer na noite eterna que se estendia num céu pintado de azul quase negro. Ia amanhecer nublado, ia ter chuva na beira do mar, aquela areia, cheia de peixes ia se encher de poeira e o mar ia tomar a terra e conforme eu andava, alguém me disse "não vá." Senti muito medo de não ir, pois sabia que ao mesmo tempo algo muito forte dentro de mim insistia em levar-me adiante, me lançar no mar, pois havia uma cura secreta lá dentro que só vencendo o medo eu poderia tocá-la.
Os peixes já não era simples peixes; estranhos mexilhões que se revolviam na areia como se lutassem pela vida como eu, que insistia em ir adiante certo da morte que aguardava num mar desconhecido, que pra me enganar, ficava calado, parava suas ondas. Não tinha nem uma espuma. Os peixes não eram peixes nem mexilhões, mas tornavam-se monstros pequenos e amarelados, cheios de espinhos e guelras que se agarravam nos meus pés, nas pernas, parecendo querer me arrastar pra dentro do mar e ao mesmo tempo que estavam ali, como em todo sonho, não estavam, brincando de me assustar e desaparecer.
Um alguém qualquer, sentado na beira do mar me dizendo pra não ir, ao mesmo tempo ria de mim, pois sabia toda a verdade sobre aquela cena; eu pensava em yemanjá, chamava por Nsa. Sra. das Candeias, gritava por Santa Bárbara e me lembrei que enquanto uma se escondia no céu nublado, outra ficava embaixo do mar esperando por mim, tragando para sempre a alma dos que se aventuram.
Eu estava no beira do mar sem vê-lo. Sua imensidão me cegava, me causava um estranho medo com tranquilidade; um medo de ter certeza, de descobrir o sentido quando mergulhasse, mas pensava no frio, no gelo da areia, imaginava como deveria ser cruel lançar-se naquele mar morto, frio como a distância entre as pessoas e tentava pensar ainda, como naquele fim de madrugada podia existir em algum canto do mundo um lugar assim tão vazio, distante, sem pessoas ou brincadeiras da praia. Não era uma praia. Era uma coisa cheia de areia e mar e vento, e céu nublado e medo, que me estasiava, hipnotizava para além de mim mesmo, querendo mostrar que não houvesse nada que eu pudesse fazer.
O lugar existe, está aqui dentro de mim. Me fez acordar chorando, cada gota daquela água salgada e pálida,  me fez olhar o céu sem enxergar o sol, vendo as nuvens que se enredam em torno do mar. Ele é imenso, gélido, esquisito e é difícil acreditar mas escondeu-se na minha alma o tempo todo; o que eu acreditava ser profundo era superfície e me encheu de medo de ir além. A cura está ali, dentro do universo que se esconde no mar, no meio dos peixes de coisas esquisitas, de espinhos que se grudam na pele, nas pedras lodosas do interior do mar, no sangue dos outros peixes, tragados pelos maiores. Se esconde nas Atlântidas imaginárias, nos palacetes que estão rebaixados ao fundo do mar pela fúria dos deuses. Está ali, numa redoma de vidro, guardado pelos titãs, pelas águas vivas e assombrações. Nas mãos da deusa divina, no seu coração, no seu segredo. A cura de tudo por um mergulho de coragem.

Sonhos, sonhos são... Mas se eu fechar bem os olhos, escuto, baixinho como um segredo, o cochilar das ondas.


"É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar..."
- Dorival Caymmi

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sonhos, sonhos são... (2)

Ele mal sabe o que eu tenho pensado. Esse blog está cheio disso - de gente que mal sabe o que eu penso. Minha arte é feita dessa inversão da realidade, em falar de alguém com a intimidade que só existe em mim, a coisa que esse alguém seja dentro da minha cabeça. Num certo grau e sentido isso me liberta um pouco desses sentimentos deveras sufocantes, tamanhos as vezes, que tenho sonhos tão belos que me carregam em luz e dúvida pelo universo de mim. Sonho com beijos que não existem, com cheiros rotos, com rostos que se abraçam e se afagam de perto, arrancam de dentro de nós o frio que existe, o eterno inverno instalado.
Como num deles, em que sonhei com uma grande tempestade; era imensa, bela, violenta e vulgar, pois queria arrancar de mim um pedaço que eu nem sabia, arrancava com violência meus pés do chão, me fazia chorar e pedir. Queria que ela passasse. Nossa casa começa a desmoronar, desfalece destruída no chão como um corpo baleado enquanto corremos para os braços da tempestade absurda. Era absurda pois haviam tantas casas, mas era justo a minha casa que ela insistia em levar; minhas coisas, minhas pessoas, meu mundo infinito materializado na tempestade inconsciente que não tinha pausa.
Mas eis que no ápice de tudo, dei-me com uma pequena cabana perdida no meio do nada inventado. Entramos. Tinha calor, roupas secas e a tempestade ainda que quisesse, não era capaz de levar uma palha da cabana pequena. Havia um aconchego único e belo, sem umidade ou odores indesejados - tinha cheiro de pão - e como em um passe de mágica éramos duas crianças em corpos adultos reencontrando a docilidade de um momento. Em aconchego e abraço, dormi com a pureza do local em seus ombros, enquanto meus dedos tateavam sua mão, seu rosto e sorria, já ignorante da tempestade que havia lá fora, mas enquanto dormia, você partiu lentamente, passo por passo, levou tudo e eu acordei estagnado no sonho cheio de realidade.
Saí correndo, procurando esguio alguém que nem lembrava o rosto, o nome, o tamanho do carinho que carregava e para minha surpresa, deparei-me do lado de fora com belos campos floridos de uma primavera que rompia em minha alma. É quimero que nos sonhos podemos trocar os afetos como as roupas, e os campos floridos me faziam chorar pela sua beleza e perfume, um encantamento, uma luz fulgurante era arrancada de cada flor, com seus brilhos próprios, cores únicas sem nada comparado nessa terra. Dentro disso, em meio a tenra experiência de refrigério, despertei, para minha surpresa, um pouco dentro da cabana, dentro da tempestade, um pouco sem alguém sem nome, querendo abrir a porta e encontrar como resposta um belo campo de flores inventadas.
Enchi meu mundo com isso; invenções, lampejos, coisas esquisitas que se configuram no escuro, dentro da minha imaginação. Uma força inerte se movimenta tentando organizar meu mundo, enquanto as dores do meu corpo reclamam de sua fragilidade, ela arranca um fio último de beleza das angústias que estão na mala. Pesadas, arrastadas de um canto pro outro, algumas divididas, fragmentadas, outras sem sentido algum; pequenos espelhos quebrados que tento juntar em palavras.
É esse sonho perdido, uma canção de amantes... Um poema vívido e tácito que é tomado como luz bruxuleante da escuridão de nós. É como um passo impossível de dar, como se estivesse sempre amarrado, uma explicação que não há palavra organizada que seja capaz de compor, não existem frases. Talvez alguns murmúrios, burburinhos dos meninos que se confidenciam no escuro pra tentar não se ver.
É meu desejo de te dizer aquilo que é impossível, pois nem eu sei o que é, essa coisa sem nome cheia de sensação, que mastiga, atrai e afasta o que somos em nós mesmos. É esse isso que nos deixa sempre nu, brinca de nos arrancar o medo enquanto deliciamo-nos de nossas indecências, até que de repente, enche de pudores e raivas, medos esquisitos, sons... Distâncias inertes, verdadeiros desertos impostos que não ousamos explorar, cheio de coisas pequenas, velhas armadilhas que nós, nesse momento e por algum motivo, não desejamos cair de novo.
A luz desse sonho é apenas o medo. Sua beleza viva de filme novo se dilui na palidez de uma fotografia, que  na realidade sabemos, se revelará na dor de não haver do lado de fora, esses campos de flores. Para encontrá-los (e aí reside dor maior ainda), deveremos olhar para dentro.

***

"É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."
- Caio Fernando de Abreu

(Não se trata de uma sequencia, mas fica aqui o link para primeira postagem:

domingo, 7 de agosto de 2011

Da serenidade.

Alguns sonhos precisam ser apagados pra ficarem mais bonitos. Só sabemos o quanto é bela a primavera quando no ardor do verão ou na palidez do outono clamamos por uma flor que nasça em nosso deserto. Hoje fui surpreendido meticulosamente mais uma vez pelas tramas perfeitas do destino; como atingido por um raio, sentidos maiores me alcançaram expandindo a consciência. Tenho visto que não existem verdades sólidas, caminhos definidos e o que dá beleza na vida é essa imensidão de incertezas, de trilhas sem rumo ou recursos.
São muitas as palavras capazes de mudar o presente, mais algumas poucas são mensagens prontas para atingir o futuro. Foi o que aconteceu. Quando a palidez outonal resseca nossas almas, as brumas não nos deixam enxergar em frente damos com os narizes nas paredes do destino; nossos limites se encontram pulsando em nossas mãos frágeis quando já não somos capazes de dar conta dos sentidos; são nesses sentidos esvaziados, quartos escuros, quando estamos cativos de nossas próprias doenças é que se revelam nossos sentidos mais íntimos; não existe despertar de consciência sem dúvida, não existe crescimento sem dor e mesmo em face da descrença absoluta precisamos "saber" intimamente que no meio de pedras áridas desce um remanso capaz de fazer crescer uma bela flor.
Nisso revela-se o exercício da fé. Crer nas coisas aparentemente impossíveis, enxergar além do vísivel, tentar transpor o muro de nossas próprias verdades e concepções e ouvir a voz de Deus que fala dentro de nossos corações, que de tão mansa parece que se emudeceu. Como o viajor cansado do deserto que não se finda, buscava uma resposta diante das impossibilidades; tentava assimilar os conselhos, os livros sagrados, os mitos. Tentava transpor a janela do esclarecimento, perdendo para a razão a benéfice intuitiva, deixando calar os conselhos íntimos, vagueia-se.
Acreditar é saber que existem mistérios mais profundos, que caminhos revelam-se, quando perdidos pela terra, na imensidão inteligível do céu. Eu não podia ver isso tudo de olhos abertos; era preciso fechar os olhos, se deixar conduzir, era preciso tatear o sentido que pulsava por dentro, a força imaterial que faz com que o sangue corra nas veias, que não tem nome, não tem cor, é sem explicação e existe simplesmente pela sua razão primeira. Apenas quando nos demos conta que as estrelas em nossa cabeça também nos reservam um segredo e sentimos que somente lá encontraremos nossa resposta, é que nosso espírito se sente livre para voar.
Fui voando em direção a essa intimidade; experienciar o espírito não tem sentido e só se traduz em nossas necessidades, se revela como unicidade e ao mesmo tempo cada um vê ao seu modo e eu vi, por fim, que não havia uma mentira sequer dentro do meu coração. O despertar para essa realidade me fazia tão melhor, enchia-me de um prazer que alimenta, desterra e trouxe essa relva cálida que brotava nos pedregulhos.
Não há mistério maior que olhar nos olhos de seu semelhante e ver a Deus. Enxergá-lo é um sonho tão possível que somente em nossas adversidades que isso se revela, em gestos simples, sem alardes, sem grandes dores ou arrependimentos; é somente num grito de amor que podemos fragilizar as prisões da matéria.
Foi sereno e belo, ver o amor revelar-se com tanta simplicidade, desabrochar com mansidão e esperança em meio a lágrimas de conforto e climáx de saber que em momento algum, por mais que parecesse, jamais vagamos sozinhos no deserto de nós. Um abraço rico, sincero o coração que se aquece pulsando forte revelando a grandeza da graça divina.
O amor, esse sim, vence tudo.


"Se você acredita, se você tem fé, bate sua cabeça e peça a zambi o que quiser."
- Cantiga de Umbanda