Fico te sentindo na esperança de captá-lo. A solidão insiste bravamente como o pescador lançado com seu barco a deriva; balança-me soturnamente assustando-me, faz-me sentir suas mãos geladas, enquanto se senta e vai se instalando por aqui. Não há mais dor que possa suportar insistindo no mar, na tempestade que começa em meus pés tomando cada um de meus pensamentos. Não suporto mais partidas, não vejo sentido nelas.
Cada vez que vejo teu caminhar esguio, arrastando os pés pela rua sempre sorridente, recebe-me com um singelo abraço e tudo se desmonta no universo, fecho os olhos segundos em suas costas e vejo o sonho lindo se refazendo. Desfaz-se a realidade a minha volta enquanto nessa eternidade de você o sonho vai passando depressa.
Te aperto com força no meu peito, contemplando teus pesos e incompreensões enquanto vejo a porta que se abre em mim, te levo para uma casa cheia de tudo, com uma varanda de eternos ventos onde contemplo singelos campos dourados e azuis. Continuo segurando-te, e enquanto percebe meus lábios se movimentando lentamente na direção de teu rosto te prendo ainda mais forte por que já alcançou a soleira. Entra sem avisos ou romances, me toma pela mão e faz-me compreender muitas coisas. Conta-me todas as histórias dos acordados, do mundo no qual vieste, dos enfrentamentos e eu te mostro todo um universo guardado. No farfalhar dos matos lá fora, como se um bicho corresse entre eles, meus lábios lancinantes vão refugiando-se, voltando para mim. É quando aqui dentro, sinto os teus me tocarem com ardor, sem medos, culpas ou receios, deixo meus abraços te afagar com carinho e acalento e desse modo, me desfaço de mim.
Estou olhando em seus olhos nesses segundos de eternidade e nem imagina a casa, os matos ou os sons que ocorrem. Teu sorriso desvela o encontro mais intimo de nossos espíritos, abraçados longe de qualquer amenidade faz o contato profundo de mim, comigo. Tuas mãos me tocam e é a chave que abre a porta onde me encontro, abraço-me despido e insisto que ali nada haveria, apesar de estar exangue em lágrimas, fulgurante por reencontrar-me.
Tua voz fala por fora fazendo calar-me. Soturno com tudo que houvera de mim ali nas mãos, na sala vazia e você encostado na soleira imploro para não partir, conversar, permanecer prostrado nesse encontro eterno, mas com sorriso sincero tua cabeça meneia e oferece a mão da partida. Vou saindo lento, outra vez aos pedaços, crente do que houvera, apesar de saber que todo beijo nada mais fora que uma epifania, o toque perene de tuas mãos em meu espírito despertando-me.
O abraço, o beijo e a voz desfez-se e vejo então derreter-te. Todo o dia passou e é hora de estranha partida. Como pudera, penso eu, já que estiveste aqui dentro todo tempo, arrancar-se agora do espírito onde frutificou plantado? As mãos que despertaram são aquelas agora que gélidas, me empurram novamente a experiência fria da solidão, que de soslaio, espera-me logo na próxima esquina.
E mesmo com tudo, ainda não expresso-me. Sinto nesse momento como se sentado em um tanto de dor. Lembrei dos augúrios, de nomes intocáveis, das suas experiências indiscretas e a realidade dá-me o tom da impossibilidade. Deveras. Não há lugar que eu olhe que não te falte. Aqui dentro tudo é ausência, cada coisa me olha lembrando minha estupidez, mas ainda assim, mesmo que clame as mesas, pernas ou portas, nada disso é capaz de abandonar-me, insistindo o barco a deriva que agora se perfura, mas castigado mesmo ao fundo sob o canto da sereia, deve lembrar-se em constante martírio.
Poderia ser o remédio. Ou talvez nem seja. Ou ainda nada disso aconteça, na insistência de um abraço eterno de um santo, quando desmanchar-se, abrirei os olhos em qualquer realidade insistente e muda. Até lá, tudo haverá para além do silêncio.
"...estou procurando, estou procurando. Estou tentando me entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda."
- Clarice Lispector






