terça-feira, 21 de outubro de 2008

Diálogos: Da paixão e do desejo


Aurélio e Fidélis olhavam-se na distância perdida de seus olhos. O primeiro, estava sentado admirando o pôr-do-sol, enquanto o outro mantinha-se sentado ao lado olhando para sua beleza ímpar; Aurélio cruzou o olhar com Fidélis que rapidamente pegou sua mão, segurando-a com força:
- Meu caro Aurélio... Você acredita no amor?
- Sim meu caro Fidélis, por que?
- E na paixão, acreditas?
- Também, mas ainda não compreendo a natureza de tuas indagações...

- Em último Aurélio: Acreditas no desejo?
- Não tenha dúvidas de que acredito em todos esses entes - Fidélis soltou a mão de Aurélio dando a volta por trás dele, chegando ao alpendre deu-se também a admirar o pôr-do-sol:
- Amigo, acha que esses três entes devem andar sempre juntos, como se fossem intrínsecos um ao outro? - Aurélio olhou profundamente para Fidélis:
- Jamais. E talvez só agora comece a compreender a natureza de tuas indagações.
Estavam os dois sozinhos, perdidos pela existência vagueando pelas reflexões como sempre faziam; o lugar e o tempo em que estavam não pode ser definido, uma vez que quando juntos, essas entidades pareciam nem estar presentes. Aurélio prosseguiu:
- Essas entidades não andam juntas meu caro amigo; pode haver amor sem paixão, paixão sem desejo, e o desejo pode caminhar em solidão. E pode haver a paixão antes de mais nada.... - Fidélis desviou o olhar de Aurélio e continuou admirando o pôr-do-sol, que se esvaia pela noite imensa que se aproximava:
- Suas indagações são puramente comprendidas meu querido amigo; você pode ter necessidade de qualquer pessoa sem nunca tê-la desejado, isso chama-se cativar. Quando se cativa alguém, torna-se intrínseco apenas um desejo, uma necessidade: aquela de manter os corações sempre próximos, aquecidos um pelo outro.
Fidélis tinha os olhos cheios de lágrima; Aurélio ficou em silêncio um instante a passou o braço nas costas dele, abraçando-o junto ao seu peito:
- Por que as lágrimas?
- Po que me culpo.
- E por que se culpa?
Fidélis permaneceu em silêncio; Aurélio não insitiu, até que o amigo se afastou e olhou nos olhos muito negros de Aurélio:
- Por que te amo. - O silêncio pareceu querer absorver-lhes mas Aurélio insistiu:
- Não se culpa por que me amas... Desde que nos vimos pela primeira vez que nos amamos incondicionalmente meu caro amigo; por que se culpa afinal?
Fidélis abaixou a cabeça, afastando-se um pouco mais de Aurélio, sem poder conter as lágrimas disse entre soluços:
- Não apenas te amo... Tenho necessidade de ti; necessidade dos teus olhos dentro dos meus e do teu coração aquecendo o meu constantemente. E nada mais que isso...
Agora era Aurélio que olhava no fundo dos olhos de Fidélis fazendo-lhe corar, e com um sábio sorriso que sempre carregava disse enfim:
- Não deves se culpar nem por isso... Não haverá mal em sentir necessidade de mim, ou do meu coração, ou de minhas mãos junto as suas dando-lhe a força e a confiança necessária; chorando quando precisar, como agora, e mantendo-me em silêncio quando precisar. Terá a minha voz sempre perto da tua e tua alma nunca estará solitária. Somos amigos meu caro Fidélis! Onde há amizade não deve haver solidão ou angústia.
Fidélis manteve um pouco de silêncio e sussurrou olhando para baixo; a noite já estava quase plena em meio os último traços de céu róseo:
- Mas tenho medo...
- Medo de teu desejo?
- Sim. - houve um silêncio - Se ele surgir, o que devo fazer?
- Manter-se em silêncio como agora. Faça do teu desejo uma provação, e lembre-se do suor da minha pele beijando a tua testa, nada mais que isso... Mantenha-o guardado em teu coração até que se vá para sempre, pois a única coisa que pode ser eterno nos sentimentos efêmeros é quando os mantemos unicamente em nossos corações.
Fidélis sorriu em meio as lágrimas:
- Podemos voltar? - Aurélio também sorriu:
- Sim, podemos. - Aurélio abraçou Fidélis com um sentimento interminável; de tão intenso podiam sentir a alma um do outro a flor-da-pele, e a verdade encontrava-se oculta em seus olhos fechados. Aurélio beijou a testa de Fidélis, que retribuiu o ato, saudando-o com ósculo; apertaram as mãos com força e partiram, abandonando o alpendre no alto de uma montanha, onde sempre se encontravam para refletir sobre tudo quanto os pudessem perturbar. A noite se estendeu com beleza, a luz da lua permanecia fria e interminável pelo veludo azul do céu, enquanto eles seguiam por um longo caminho aquecidos apenas pelos seus corações.

"Sentir teu coração perfeito, batendo a toa isso dói...
Seja como for; é uma dor que dó no peito, pode rir agora, que estou sozinho...
(...)
Quando as estrelas comerçarem a cair, me diz pra onde é que a gente vai fugir..."
-Renato Russo

2 comentários:

Vato!!! disse...

Nossa...

Não tenho o que comentar...

É seu?

Cara, tiro o chapéu pro cê!!!

E continuo sem comentários...

Abraço.

ELS Pouso ALegre disse...

Ou loko eim..
PARABENS,,,,
vc é o melhor...
é olhando para simples palavras ..nao imaginamos...q... há alguem use-as para tocar o mais profundo de nosso ser, nosso sentimeto

VC é especial...