Certa vez uma amiga me disse que estava lendo "Budapeste" de Chico Buarque de Holanda. Fiquei curioso e indagando-a sobre a obra ela me disse que era como se "a personagem central fosse o viés do livro, onde o mundo visto pelos seus olhos não passa de um borrão, como quando vemos a paisagem pelos vidros de um carro em alta velocidade". Já decorre tempos em que ouvi ela me dizer isso, e hoje, procurando algo que exprimisse a sensação contraditória que me abarca, lembrei-me da doçura com que me explicou sobre essa obra, pois só agora compreendo que o que me ocorre, para que eu veja todas as tardes como aquelas de inverno, é que a vida tem sido como um borrão, onde não há nada que passe por um tempo suficientemente lento para que possa fazer sentido nesse momento. Disso, comecei a pensar nos sentidos e lancei minha alma em profundo desalento; como se minha existência, por ora, estivesse suspensa pelo existir, sem compreensão do que é o sentido naqueles momentos parcos. Já não há cigarros suficientes ou pessoas que preencham a solidão de alma, como um buraco que se expande, fazendo perder-se do eu em mim mesmo, procurando o "sentido" na vida, nos coração e nas pessoas, além de uma ânsia perpétua no conhecer, como se o conhecimento permitisse compreender a angústia das pessoas, e ao mesmo tempo compreender que sentido deve haver em mim, enquanto a vida passa... Suficientemente lenta para não parecer nada mais que um borrão.
Nesse ponto, deparo-me com a dialética das emoções vividas e do devir. Há um constante resgatar das emoções em prol de preencher o vazio, que pelo contrário, parece expandir-se no momento em que as busco, ao passo que essas emoções não são vazias; contudo o vislumbrar do "devir" pessoal faz sentir o quanto me perco, pois é aí que temo o esvaziamento constante de tudo que possa ocorrer, como se as emoções fossem carregadas no movimento veloz que a vida me mostra, onde a dialética do existir lança-me a náusea.
(...)
Era de manhã. Um belo amigo me diz que precisava de um abraço, literando nessa frase a dor que pode tomar conta dos seres, como quem apresenta uma fresta em meio aos "borrões" que a vida apresenta. Era pena que "a distância que separa é a mesma que coloca ao redor", sendo que eu não estava ali com ele, apenas existia nas emoções que ele resgatava, e naquele momento nada lhe sobrava a não ser isso. Consolei-lhe afim de não pensar naquilo que profundamente lhe incomodava, deixando mais leve o vazio que se contrapunha entre nós, onde não haveria maior na confusão de nossos próprios sentidos.
Sempre como há de ser as pessoas partem, partindo sempre levam fragmentos de nós mesmos, e então me pergunto, se a soma de todas essas partes que se espalham do nosso existir por outras existências não trariam a complitude daquilo que nos esvazia e nos suspende.
Quis chorar, mas não pudia; precisava aprender como a angústia coexiste em nossa própria solidão.
"... Para abraçar seu irmão e beijar sua menina, na rua... É que se fez, o seu braço, o seu lábio e a sua voz...
Você me pergunta pela minha paixão, digo que estou encantado com uma nova invenção, eu vou ficar nessa cidade não vou voltar pro sertão, pois vejo vir vindo no vento o cheiro da nova estação; eu sei de tudo na ferida viva do meu coração..."
- Elis Regina
"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."
- Clarice Lispector
3 comentários:
Magnífico texto, acho que ele revela o significado do seu blog!
Tenho um fragmento de ti comigo, e vc tens o meu, seremos assim, humanos, despedaçados, um só ser, uma só náusea... Uma só angústia...
Abraço
Quis chorar, mas não pudia; precisava aprender como a angústia coexiste em nossa própria solidão.
Muito bom o texto
Ficou MARA
Felciidades
Você manda bem...!!!
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