Fazia frio.
Via pela vidraça as cortinas esvoaçantes e o céu cinza q iluminava rotamente o dia que nos cercava. Sentia seu calor perto de mim, e a beleza dos teus olhos que me contemplavam docemente; ainda não era possível ouvir a tua voz, sendo que não ouvia nada além que alguns passos que percorreram o ambiente apressados e não podia dizer de quem era, nem queria! Nada poderia me preocupar naquele momento a não ser o que ocorria dentro de mim com tamanha intensidade que parecia real.
Reclinei minha cabeça no teu ombro e deixei que uma lágrima fugisse meus olhos; olhei com delicadeza todo seu trajeto, percorrendo cada traço do seu casaco pálido e se desmanchando no chão, que de tão absoluto silêncio que estávamos, percebi que pode ouvir o som da lágrima se desfazendo docemente:
- O que está havendo?! - ouvi pela primeira vez a tua voz dizer; era tão clara que pareceu percorrer cada canto dos meus ouvidos até chegar a consciência, me dizendo que era você que me falava:
- Nada. - Respondi com temor, e me calei.
Alguns momentos passaram, não sei dizer se foram horas ou minutos, até q a sua mão percorreu até o caminho da minha e senti o teu calor pulsar com docilidade sobre minha mão, tomando-a de assalto e entrelaçando sua alma no toque dos meus dedos. Percebi que nesse minuto esbocei um sorriso e pela tua mão podia sentir teu coração e ouvir tua respiração muito próximo de mim; tive medo do que haveria e sem mais havendo o que pensar, esfacelei todos os pensamentos quando a profundidade dos teus olhos se fecharam para sempre: Acompanhei o trajeto de tuas pálpebras escondendo duas grandes amendôas, percebi cada linha de teu rosto, absorvi a imagem dos teus cabelos, teus ouvidos, tuas mãos e finalmente permiti que meus olhos se fechassem, sentindo finalmente a tua respiração tácita e quente....
Meu coração estava disparado, parecia doer e de tão intenso dos meus olhos fugiam lágrimas; olhei pro relógio que gritava por mim as 5h da manhã, levantei-me as pressas e comecei a lavar o rosto freneticamente em água fria pra me livrar dessa lembrança estranha.
Precisava prosseguir a vida, que permanece sempre cheia da tua ausência.
"Sei que é sonho, não por que da varanda atiro pérolas, e a multidão de famintos se engalfinha; não por que voa nosso jato roçando catedrais, mas por que na verdade não me queres mais aliás, nunca na vida foste minha!"
- Chico Buarque
"Sonhar é acordar-se para dentro."
- Sigmund Freud
2 comentários:
Belo, belo, belo!
Incrivelmente belo.
Nossa, você não sabe o quanto amei esse texto. E os fragmentos ao fim dele, então? Principalmente o do grande Chico, que é meu ponto fraco. [hahahaha]
Enfim... suas palavras me fizeram viajar por um momento, e posso dizer que foi uma longa e bela viagem. Parabéns!
E ah, antes que eu me esqueça... Desculpe pela demora em responder seu comentário. Não queria ter demorado tanto.
Agora vou me apressar em ler seus outros textos.
Abração.
Texto lindo, lindo!
E duas paixões no final.
Chico e Freud. hahah
Sinto sua falta.
Te amo.
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