quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sonhos, sonhos são...

Fazia frio.
Via pela vidraça as cortinas esvoaçantes e o céu cinza q iluminava rotamente o dia que nos cercava. Sentia seu calor perto de mim, e a beleza dos teus olhos que me contemplavam docemente; ainda não era possível ouvir a tua voz, sendo que não ouvia nada além que alguns passos que percorreram o ambiente apressados e não podia dizer de quem era, nem queria! Nada poderia me preocupar naquele momento a não ser o que ocorria dentro de mim com tamanha intensidade que parecia real.
Reclinei minha cabeça no teu ombro e deixei que uma lágrima fugisse meus olhos; olhei com delicadeza todo seu trajeto, percorrendo cada traço do seu casaco pálido e se desmanchando no chão, que de tão absoluto silêncio que estávamos, percebi que pode ouvir o som da lágrima se desfazendo docemente:
- O que está havendo?! - ouvi pela primeira vez a tua voz dizer; era tão clara que pareceu percorrer cada canto dos meus ouvidos até chegar a consciência, me dizendo que era você que me falava:
- Nada. - Respondi com temor, e me calei.
Alguns momentos passaram, não sei dizer se foram horas ou minutos, até q a sua mão percorreu até o caminho da minha e senti o teu calor pulsar com docilidade sobre minha mão, tomando-a de assalto e entrelaçando sua alma no toque dos meus dedos. Percebi que nesse minuto esbocei um sorriso e pela tua mão podia sentir teu coração e ouvir tua respiração muito próximo de mim; tive medo do que haveria e sem mais havendo o que pensar, esfacelei todos os pensamentos quando a profundidade dos teus olhos se fecharam para sempre: Acompanhei o trajeto de tuas pálpebras escondendo duas grandes amendôas, percebi cada linha de teu rosto, absorvi a imagem dos teus cabelos, teus ouvidos, tuas mãos e finalmente permiti que meus olhos se fechassem, sentindo finalmente a tua respiração tácita e quente....

Meu coração estava disparado, parecia doer e de tão intenso dos meus olhos fugiam lágrimas; olhei pro relógio que gritava por mim as 5h da manhã, levantei-me as pressas e comecei a lavar o rosto freneticamente em água fria pra me livrar dessa lembrança estranha.

Precisava prosseguir a vida, que permanece sempre cheia da tua ausência.

"Sei que é sonho, não por que da varanda atiro pérolas, e a multidão de famintos se engalfinha; não por que voa nosso jato roçando catedrais, mas por que na verdade não me queres mais aliás, nunca na vida foste minha!"
- Chico Buarque

"Sonhar é acordar-se para dentro."
- Sigmund Freud

2 comentários:

Humberto Filho disse...

Belo, belo, belo!
Incrivelmente belo.
Nossa, você não sabe o quanto amei esse texto. E os fragmentos ao fim dele, então? Principalmente o do grande Chico, que é meu ponto fraco. [hahahaha]
Enfim... suas palavras me fizeram viajar por um momento, e posso dizer que foi uma longa e bela viagem. Parabéns!

E ah, antes que eu me esqueça... Desculpe pela demora em responder seu comentário. Não queria ter demorado tanto.
Agora vou me apressar em ler seus outros textos.

Abração.

Mah disse...

Texto lindo, lindo!
E duas paixões no final.
Chico e Freud. hahah

Sinto sua falta.
Te amo.