sexta-feira, 3 de abril de 2009

Passagens.

Olhei-o esguiamente por uma fresta. Comecei a desenhar lentamente seu rosto com os olhos, o que era totalmente novo pra mim; tinha um belo rosto, lançado em uma moldura muito negra dos teus cabelos meio bagunçados. Tinha os olhos tão perdidos que pareciam estar num tempo que ainda desconheço e mesmo não possuindo um exotismo colorido na sua pupila dilatada, seus olhos eram de uma simplicidade fascinante, onde aqueles dois círculos muito negros naquela pele tão branca, levavam a crer que pudessem ter sido pintados propositalmente ali nas retinas do jovem que eu observava.
De repente, todo o idilismo daquele momento pareceu transferir-me daquele lugar em que encontravámos, apesar dele não saber que o olhava, ou mesmo de minha existência naquele ambiente, parecia conhece-lo há muito, de algum lugar que não podia me lembrar; minhas lembranças começaram a guiar-se lentas, tentando tornar-se filmes para um espectador que era eu, buscando encontrar um trecho em que pudesse colocá-lo e desse modo, jamais perde-lo de vista, tendo em mente o local em que poderia novamente tocá-lo. Só então percebi que meu olhar era demasiado para seus olhos pálidos, que captaram a minha imagem naquele canto esguio do lugar em que nos encontravámos e para minha surpresa, agora eram seus olhos que tomando conhecimento dos meus, pousaram sobre eles como se também buscasse uma lembrança de mim em si mesmo, o que fora suficiente para que um turbilhão me invadisse, fazendo-me considerá-lo alguém profundo e excentrico, difícil de acessar, como sendo esse último, algo que me atraia e fascinava naqueles olhos tão negros.
Voltei a desenhar seu rosto com minhas retinas, fotogrando cada milímetro de sua cálida expressão; tive medo e senti meus olhos lentamente encherem-se com uma brisa tipicamente outonal pelas 5h da tarde que invadiu meu rosto, meu corpo e meus olhos que perdiam-se em silêncio. Fitei pela última vez toda sua silhueta, criando uma última sombra daquele que habitaria para sempre minhas lembranças idílicas, fazendo ter-me a sensação de conhece-lo de décadas apenas pela profundidade do olhar que alcançara nesses esparsos segundos ou minutos que nos perdemos em nós, de nós mesmos. Permiti que sua imagem fosse se desfazendo como pó, enquanto piscava os olhos e seu rosto se afastava em meio a multidão; inúmeras pessoas transitavam ao nosso redor nos lembrando do frenesi da vida real, enquanto isso um afastamento estranho ia soltando no ar finalmente nossas almas que quiseram se encontrar por um momento.
Pisquei uma última vez, tardiamente agora, pois já não via sua silhueta, sua sombra ou seu rosto singelo, muito menos seus olhos negros e belos caminhando pela multidão que os invadira; continuei a caminhar buscando meu caminho, carregando a eternidade desses minutos, que por questão fizeram-se poemas: belos e breves.



"Já te vejo brincando gostando de ser, tua sombra se multiplicar; nos teus olhos também posso ver, as vitrines te vendo passar... Na galeria, cada clarão é como um dia depois de outro dia, abrindo o salão; passas em exposição... Passas sem ver teu vigia, Catando a poesia que entornas no chão."


- Chico Buarque


"Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além de qualquer experiência, teus olhos tem o seu silêncio; no teu gesto mais frágil há coisas me encerram ou que eu não ouso tocar, porque estão demasiado perto..."


- Zéca Baleiro


3 comentários:

Vato!!! disse...

Quão inspiradora e simples leitura!!!

Gostei muito de ler isso. Algo que não injeta nenhuma esperança ou tristeza na alma, apenas nos faz refletir sobre a essência da essência humana, algo entre o acontecido e o quase nada dito em um olhar...

Gde abraço pra vc!!!

Sátiro disse...

"teus olhos tem o seu silêncio; no teu gesto mais frágil há coisas me encerram ou que eu não ouso tocar, porque estão demasiado perto..."
Se tu não tivesses colocado essa frase abaixo eu teria te lembrado.

E o que mais me surpreende, é que falastes na linguagem dos olhos. Tens esse dom.

Um abraço, meu amigo!

Nati disse...

Meu caro amigo! Fantastico...amei o poema!!!
inspirador....e tocante!
Bjoss...desejo tudo de bom pra vc!!
Sucesso!!!