quarta-feira, 1 de julho de 2009

Passagens V - O início do fim

Já havia algum tempo que Victor procurava por Augusto. Voltou ao lugar de origem, onde se viram pela primeira vez e de repente os olhos de Victor brilharam ao ver uma silhueta parecida com a de quem procurava, mas não passara de um alarme falso. Ele sentou-se, ajeitou o blaser sobre os ombros e aguardava a chegada do seu próximo ônibus e enquanto esperava, passava pela sua mente cada uma das estações em que esperava por Augusto; cada passagem da vida, cada bilhete de viagem, cada momento de uma espera interminável e de um medo constante de ouvira o que já sabia, entretanto, só creu quando ouviu de próprios lábios, em palavras que se derramaram sobre sua cabeça em um doce amargor inexplicável.
Erlebnis; pensou Victor. Disso é feito a vida; da consciência do vivido, que não precisa ser necessariamente o explicável, mas distante apenas do imaginativo, contemplativo, metafísico, Victor precisava viver, experienciar o sentido de ouvir cada uma das palavras que saltaram da mente de Augusto para sua realidade, tornando aquilo que apenas intuia em uma parte de sua existência palpável; e foi com isso, acrescentando tudo isso em sua bagagem que Victor arrastou suas pesadas malas mais uma vez por aquele terminal agora sem data de volta e sem procurar por olhos que nunca mais verá.
Deviam ser 5h da tarde, era inverno e o sol já preguiçosamente partia, o que interteu Victor que parou suas próprias deliberações pra contemplar o poente; "como é belo viver", pensou ele, e por mais que estivesse trazendo um coração pesado pelas desilusões do afeto, sabia que o tempo, aquele que tudo organiza, trataria de carregar dele essa aflição, levando-a para o mesmo lugar onde o sol se põe, que não é apenas o horizonte, mas aquele lugar que faz do sol cada dia um novo, apagando-se no poente e renovando de vez o seu brilho ao amanhecer. Tamanha era a beleza daquele momento que os olhos de Victor se encheram d'água e finalmente sentiu que fez a coisa certa.
O sol partiu finalmente, o ônibus parou frente ao rapaz. Ele enxugou uma lágrima que insistiu em fugir e deixou sentada ali a última tristeza que poderia levar: Aquela de embarcar procurando com os olhos aquele que se desmanchara na multidão de fatos e pessoas. Ele entrou, trazendo na bagagem um desejo infantil de começar de novo e a certeza de que sua essência, essa sim, jamais se desfará.

"Existirá, em todo porto tremulará, a velha bandeira da vida; acenderá todo farol iluminará, uma ponta de esperança! E se virá, será quando menos se esperar, da onde ninguém imagina; demolirá toda certeza vã, não sobrará.... Pedra sobre pedra"


- Lulu Santos


2 comentários:

Mah disse...

"O sol partiu finalmente, o ônibus parou frente ao rapaz. Ele enxugou uma lágrima que insistiu em fugir e deixou sentada ali a última tristeza que poderia levar: aquela de embarcar procurando com os olhos aquele que se desmanchara na multidão de fatos e pessoas".

Texto seu tem CARA de texto seu. Eu sei reconhecer de longe, e adoro!

Tava com saudade disso.
Te amo.

Ni ... disse...

Texto de uma sensibilidade única...

Lindo...!