
Meus relógios não tem tic-tac. Como meus poemas, que são mudos, meus relógios contam o tempo sem medida, sem aviso; me arrancam os minutos como vento nas folhas ressecadas pelo outono; apenas a chuva traz um som triste na janela; como um velho blues, não cansa de gritar a tristeza que traz de longe.
Viver é belamente estranho; são minutos em que sem licença alguma estranhas angústias invadem o peito; não tem pedido, medida, não tem cura alguma, elas simplesmente vem, como uma obrigação de qualquer que seja humano; experimentá-las com o sabor amargo que lhes apraz. É como se angústia fosse um bixo vivo, que se aproxima e só abandona quando bem quer; se instala na parede, no relógio, no sofá, na mobília, na chuva... Como uma dor fina, gota a gota.
Lembro-me dos meus diálogos de infância; preocupávamos com problemas pequenos, coisas tão belas e sem sentido faziam de nossos minutos coisinhas pequenas e mágicas, onde nem tempo era mais, mas sim belos vagalumes rodeando a nossa cabeça. Hoje o tempo apenas tortura os por quanto o perseguem, na busca de um sentido sempre esvaziado para tudo aquilo que nos rodeia; como se o tempo carrega-se para si todo sentido que há no mundo; como se o tempo, aquele único remédio para as dores, fosse também aquele que as traz como Hélio carregando o sol.
São minutos, enquanto sinto a vida me arrancar até as palavras; minutos tão grandes prontos para me prender, sentidos tão pequenos no vazio da existência que nem se vê, sendo preciso procurar no chão, catar pequenos pedaços, tentar ajuntar, colocar tudo na gente e sair carregando pra se construir, prisioneiros todos desse tempo onde não existe mais a inocência de simplesmente existir, sem espaço para a ingenuidade de simplesmente se perder.
Me sinto refém de mim, nesses minutos onde pequenas lembranças me torturam com uma força de anos; queria saber como pode caber tanta coisa em um minuto e o que fazer pra se livrar dele. Preciso transcender o tempo, preciso tirar dele toda essa angústia, dar-lhe cor, um som, uma textura, um barulho que suficientemente me distraía desses minutos fustigantes. Me sinto preso a esses minutos torturantes, que fazem me perder em toda sua grandeza, desejando ter apenas um minuto feito de qualquer coisa que me caiba suficiente.
A chuva insiste; minuto mais um minuto, mais um tempo, mais um dia e é de repente, vem uma lembrança tão pequena me carregando, que eu desejo não ter mais esse tempo feito de qualquer coisa. Quero um tempo feito de mim, pra não haver pecado nem dor dentro desses minutos.
"It's gonna feel just like those raindrops do, When they're falling down, honey, all around you.
Oh, I know you're unhappy."
- Janis Joplin
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