quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Sonho de uma noite de verão


Meu coração titubeava. Minhas pernas tremiam, apertando o celular entre os dedos esperava a tua ligação; o celular toca, vejo teu nome, escuto o som da tua voz.
Minutos depois, sua imagem começa se desenhar frente a mim, seu jeito, suas formas, sua voz... O tempo pareceu passar depressa, pois parecia tão crescido; meus olhos navegaram seu corpo, confesso, e fitando seus olhos descobri o que ainda se conservava da sua criança. Tinha os mesmos olhos pequenos e assustados daquela época, ainda reservados numa sedução silenciosa, sempre marejados pela tua alegria que se encerra.
Eu ainda não podia entender a grandeza daqueles momentos; falavámos sobre nossas coisas, começamos a reunir os fragmentos de nós mesmos, nos envolvendo em nossas pequenas histórias sobre o passado, e tudo se passava tão belo que eu não podia parar pra pensar o que seria dali a um minuto. Eu não queria que o tempo passasse, pelo contrário, poderia ficar ali pra sempre te contemplando, ouvindo tua voz, vendo teu sorriso - te encerrei nesse pedaço de eternidade e tudo parecia tão mágico que minha existência parecia suspensa. Não havia mundo que não fosse o nosso, tão pequeno e suficiente para nós mesmos.
Continuamos a caminhar noite a fio; gostava de te olhar esguio, de fingir não estar te vendo, de brincar de deixar de ouvir pra me perder nos seus olhos e foi no meio de tudo isso que senti o meu passo se perder no seu, meus olhos irem se fechando e apenas o seu abraço encerrou o idilismo daquele momento tão doce; nada parecia real, tudo estava tão tátil que eu custava crer que ainda estava nesse mundo e perdido na grandeza dos teus carinhos o sol despontou sobre meu rosto, dotado de uma luz ofuscante que te escondia, senti tuas mãos se soltando lentamente de mim e num único suspiro eu despertei.
Fora tudo um sonho eu pensei; levantei, posei as mãos sobre o rosto e olhei profundo em mim mesmo. "Fora tudo um sonho", até que minhas mãos revelaram o seu cheiro impregnado em cada pedaço de mim; o teu perfume, as tuas palavras foram ficando claras e me lembrei finalmente com uma doce tristeza de nossa despedida.

Talvez tenha sido a febre veronil que fez tudo ficar tão belo e tão intenso. Parece mesmo um sonho, a não ser pela lembrança bela de seus olhos me contemplando em uma noite, tão pequena e tão imensa, que é como os sonhos, que nos arrancam do chão por minutos para que não nos esqueçamos da eternidade.


"Quando fala o amor, a voz de todos os deuses deixa o céu embriagado de harmonia."
-W. Shakespeare

domingo, 13 de dezembro de 2009

Ilusões.



O vento balançava o portão e uma chuva fina caía lá fora, típica dessas épocas do ano; "eram dias como aqueles" eu pensei, enquanto colava o nariz na vidraça e olhava do lado de fora. O vento levava a fina chuva pra todos os lados, e no meio das brumas que se espalhavam no tempo frio vi a sua forma, sua silhueta se formando no meio da chuva; tive um impulso de ir até lá fora, abrir o portão como fazia naqueles tempos, te segurar num abraço forte o suficiente pra nunca mais te deixar ir, mas como já esperava, não passavam de ilusões que se criavam pra não me deixar esquecer da beleza desse passado.
Meu mundo é pequeno sem você eu confesso; está sempre faltando um pedacinho que eu escondo com um sorriso no fim desses dias - é inevitável, faz parte do existir essas faltas que nos acompanham, porém, jamais deixarei de lamentar por um dia tê-lo tido nos braços e simplesmente ter deixado escapar pelos dedos; o que me sobra são só essas lembranças perdidas no tempo, tão rotas que mais parecem ilusões sempre surgindo em meio a esses dias cinzas de chuva, iguais aqueles, pra que eles não se percam para sempre na imensidão de mim. Enquanto isso, fico perdido nas nossas lembranças impregnadas nessa casa, nos tantos sorrisos que já te arranquei, nos nosso abraços, na sua voz procurando por mim que te esperava com ansiedade no fundo do quarto. Fico aqui sozinho, apenas com essas coisinhas nossas que já não me levam mais a você.
Descolo os olhos da vidraça, procuro desviar o pensamento, então o portão se abre lento; vou correndo ao teu encontro, posso sentir o teu cheiro, posso ouvir o teu riso na frente da casa, mas minha iluminação se esvai quando vejo que não há mais nada a não ser o vento balançando o portão. A chuva está parando, deixando apenas uma brisa leve que me fez arrepiar, parecendo sua mão me tocando devagar.
Serão apenas doces ilusões, ou será que também se lembra de mim na palidez desses nossos dias?



***




"Houveram dias na terra em que os sagrados orixás caminhavam por aqui; contam as lendas que quando Xangô vai visitar Ogum, o grande ferreiro e guerreiro, ele vê uma de suas consortes, Oxum, coberta de muito ouro e de belos vestidos. Xangô se encanta pela beleza de Oxum e não resistindo aos encantos e a beleza de Xangô, eles decidem fugir juntos para viver longe de Ogum esse amor proibido.
"Muitos tempo passou da fuga de Xangô e Oxum e daí as lendas divergem, entretanto, é sabido que Oxum é deusa de rios e cachoeiras e segundo essa mitologia, as cachoeiras se formam das lágrimas de Oxum que rolam pelo amor de Ogum que ainda pulsa devagar em seu coração. Hoje, aqueles que sofrem por esses amores que se perderam no tempo, rezam para que Oxum, com seu belo manto de ouro e lágrimas os cubra de acalanto, pois quando viveu na terra, ela bem soube o que era viver um amor que se perdeu no tempo."
As músicas cantam, os tambores tocam; Oxum está nas cachoeiras, Xangô na pedreira, enquanto Ogum está de ronda....




"Eis um teste para saber se você terminou sua missão na Terra: se você está vivo, não terminou."


- Richard Bach