Queria poder acreditar que está lendo cada uma dessas palavras. Eu posso fingir e continuar escrevendo e deixar que se esvaía lentamente um pouco dessa dor, pois é a única coisa que me resta de ti.
É preciso que saiba que tua partida fora tão terrível quanto tua chegada; saiu deixando o meu mundo de cabeça pra baixo, exatamente como quando chegou. Não é culpa sua; não é sua culpa ter os olhinhos de bom moço que escondem toda tua bela inocência, também não se culpe por ser dono de um belo sorriso que alegrou meus dias, enchendo-os com uma nova cor. Não é culpa sua eu te amar com a força de tantas vidas, acredite, era necessário, pois para fazer o bem, é preciso encontrar primeiro o mal que ele abriga e acredite, estive as faces com ele assim que decidiu que devia deixar-me. Era como se um amigo de infância estivesse partindo para nunca mais e pior, a contragosto.
Queria poder ter evitado todas essas coisas meu doce anjo, e no meu íntimo, imploro ao criador para que não sofra tanto quanto estou sofrendo; seria dor demais pra caber nesse universo. Peço também que ele seja piedoso comigo e conforme meus merecimentos frente a ele, que ele leve essa dor que se abriga em mim e me congela. Minha vida está parada meu anjo, pois é como se dela tivesse saído alguma peça vital e confesso finalmente, jamais poderíamos viver algo que nos devora e nos mata a cada instante que cresce; nosso amor se fizera tão puro que pareceu pecado e por força das circunstância, devemos matá-lo com as foices cruéis da solidão - tentei te avisar, mas era tarde, pois estava tã envolvido nessa insanidade que já não podia enxergar; as brumas que existem em você me cegaram e por fim, terminamos cada um de um lado dessa triste e pequena história sem começo ou fim.
Cativar dói; se lembra das nossas noites em que te avisava isso e antes que partisse lhe repetia sempre a história do princípe e da raposa? é só o que me sobra agora; sinto-me como a pobre raposa que se perdeu nos olhinhos ingênuos de um principe que viera de outro planeta para compreender os mistérios de uma rosa que tanto amava. Eu quis lhe ser tantas coisas; me mostraste os poços que habitam o deserto e eu de tão encantado me esqueci que jamais poderia trazer-lhe para as obscuridades que habitam meu existir.
Finalmente me sobrou essa melancolia meu anjo; mas ela não é culpa sua. Não existem certos ou errados onde existem afetos, já que não podemos controlá-los; nós não os possuímos, apesar de nos habitarem e mesmo sabendo que eles nos movem, não podemos dizer sim ou não. Fiquei preso em teus olhos e apesar de nunca tê-lo feito, é como se tivesse tocado cada milímetro teu, de tão belo que fora, podia beijar os teus olhos na distãncia e os meus sonhos se embustavam do teu cheiro.
Fique sabendo apenas que sinto a tua partida e repetindo o grande fardo de todos os poetas ou brincadores de palavras, lhe escrevo essa carta, sem endereço ou nome, apenas com um sinal de ti, tuas letras escritas miúdas no começo dela, para que eu cumpra minha única promessa a você: Que um dia lhe escreveria poemas com coisas que só nós dois saberíamos o que significa e se um dia se lembrar desse fingidor, vai ler e seus olhos se encheram com nossos pequenos segredos.
Durma em paz meu doce anjo.
S.R.S., 26 de Janeiro de 2010.
C.R.A
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