Levo comigo, na minha bagagem de coisas e pessoas um pedaço de cada amor. Nos poemas, crio a forma mais sutil de registrá-los, guardá-los comigo, levar para onde for preciso e quando sinto nostalgia, abro minha gaveta de coisinhas e encontro sempre lado um pedaço de alguém que possa me consolar; são letras e versos, escritos da alma que pelo tempo se vão e agora, tomado por aquilo me consome, debruço-me sobre os lápis novamente, como o pintor que olha para tela e admira até mesmo seu branco intocado.
Resolvi te pintar em palavras; no primeiro toque do pincel desenho seus olhos, renitentes, assustados, miúdos como bolinhas de gude, seu olhar, tão ingênuo e tão cheio de segredos é pequeno e grandioso - tão simples que me impressiono de olhar. Deve ser esse seu segredo; é sua simplicidade que prende e lembro-me em seguida da maciez de tua voz cálida; alguém que fala baixo como quem conta um segredo, tranquilo, de poucas palavras, sua fala é tão doce e segura que nem percebe que está sendo admirado.
Além disso, tem um sorriso belo; muito harmonioso, nada gritante, nada estonteante que é preciso ficar quieto para reparar, como quem houve uma sinfonia, ou se cala para ouvir o canto dos pássaros, é preciso parar, olhar devagar e compreender o teu sorriso de menino. Encantador eu diria, feito de uma beleza única que prende sem porquê.
De minha parte, como artista do mundo, gosto de admirar enfim; teu sorriso, teus olhos, tua pele, tua voz... Capto cada detalhe, te olho no silêncio sem ser notado para ter todos os teus motivos e te lançar na minha tela de palavras e temo em ser notado; quero apenas o silêncio de mim, a admiração tranquila e calma que carrego, preso em um romance que existe apenas nos meus idilimos secretos.
Com isso, registro teu lugar na bagagem; será levado sempre como dono da beleza mais tímida que já vi, aquele que precisa ser olhado muitas vezes, precisa ter a voz ouvida e os segredos confidenciados para conferir que é de uma grandeza imensa a tua luz. Por fim, lembro dos momentos que não fui apenas um admirador inerte, mas um ator de tua timidez, tocando-lhe, olhando com profundidade, rindo com você das tuas coisas, das minhas, falando bobagens pro tempo perdidos por alguns minutos em nós mesmos; inebriante eu diria, contudo, nada disso é passível de registro, nenhum desses momentos pode ser congelado para lembrar-se eternamente, devendo contar apenas com a memória do artista que sempre ao descrever bela paisagem, terá também uma história oculta para engrandecer a obra.
Inebriante...
"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."
-Clarice Lispector
2 comentários:
A coisa maaaaaaaaaaaais doce EVER! Lindo, lindo, sublime!
Me apaixonei!
=***
Sem palavras...
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