domingo, 11 de julho de 2010

A dança da alma.



Estava solto, leve como uma pluma. Pairando sobre um ar desconhecido, lancei-me numa novidade que não sabia possuir; fui tocado entre os olhos com força e uma luz púrpura percorreu todo meu corpo, aquilo me aquecia, faziam arder meus pés e fui obrigado a sentar-se num chão todo branco e era atendido apenas por uma voz tenebrosa:
- Onde estou afinal?
- Na sua alma.
Era estranho e comum ao mesmo tempo; não entendia por que desconhecia a grandeza de mim mesmo... O tempo e espaço não se harmonizavam ali dentro, não parecia terreno. Havia um misto de alegria e temor que me lançavam no mais profundo vazio da existência... Senti que me esvaziavam de algo, tentavam tirar de mim coisas que eu não sabia carregar e elas saltavam, pelos olhos, boca - como um Deus Hindu soltando línguas de fogo, as coisas eram pedidas e saíam por mim de modo que eu nunca imaginei. Esperava que a grande voz falasse comigo de novo; tentei me levantar e não pude.
O quarto branco tornou-se púrpura; na minha direção um homem de vestes brancas e azuis caminhava graciosamente trazendo em punho um belo cristal prateado; sem dizer nada ele fez-me levantar e cravou em minha testa essa pedra ágata e com profunda dor meu corpo partiu-se ao meio lentamente; podia sentir minhas víceras dilacerarem-se lentamente, muitas vozes, alguns augúrios e eu tentava entender como podia estar vivo mesmo sendo partido ao meio. O quarto púrpura foi se enchendo, a roupagem foi retirada do teto e com leveza podia ver o mais belo céu salpicado de estrelas, foi tudo se rasgando e surgiram fogueira e algumas pessoas, belamente vestidas me convidavam a dançar... Fui lançando-me devagar naquele último instante - o corpo dilacerado outrora já não existia mais e coisas novas me revestiam, entre presentes que me eram lançados, todos estranhos e desconhecidos, foi colocada uma carta de tarô na minha mão com uma moeda de prata:
- A sacerdotisa. Para abrir teus caminhos....


- Senhor? Senhor?


- Sim, estou aqui.
- Tome, seu dinheiro. Obrigado. - O homem com vestes de hierofante levantou-se da minha frente, colocando dinheiro sobre a mesa revolta de cartas beijou a minha mão e mais uma vez agradeceu.
- Obrigado. E partiu.
Levantei-me buscando ar; as horas avançavam lentas; olhava no relógio com receio e ceticismo, respirei aliviado por fim ao saber que tudo voltara ao normal.
Sentei-me, comecei a folhear as lâminas, organizá-las, ainda sem entender muito bem o que acontecera, até que no meio delas havia uma carta encrustada com uma moeda de prata, suas bordas queimadas, ainda quentes pelo fogo recente que a tomara.
A sacerdotisa que queimou-se, assim que o hierofante partiu.




"É molé. Eche papa Babá! É molé. Eche papa Babá! Axé! Axé! Axé!"





- Saudação yorubá ao Orixá Oxaguian, o renovador dos homens.

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