sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Canção do animus



Vejo na distância das imagens as mãos cansadas que me fizeram; seu sorriso traduz uma tristeza que ninguém mais pode enxergar, segurando em suas mãos nossa pequena jóia, escondidos constantemente em seus pensamentos distantes, carrega em si mesmo a eternidade das incompreensões. Nesses momentos reflito com profundidade e vejo a vida presa em vitrines injustas que jamais pude ver; ninguém lhe defende, ninguém se preocupa; apenas tocam-lhe em todos momentos a sordidez de teus atos e simplesmente se perdem nos lamúrios dos erros de alguém.
Todos nós erramos um pouco; nas faces de nossas incompreensões e imperfeitas vontades, contraríamos um coração cansado e umas mãos refeitas que nunca soube o que quis, viveu sempre perdido em si mesmo numa constante busca por algo que não se encontra nesse mundo e no fundo, reside uma inconstância perene em todos por saber que somos em algum grau uma breve extensão dele mesmo, de sua tristeza e de seus olhos perdidos. Talvez nunca tenhamos parado pra pensar e na constância de nossas cobranças nunca nos perguntamos em nós mesmos o que pensava ou que desejou para si. Teve seu tempo eu diria e agora em nosso tempo, perdeu-se na eterna incompreensão da vida; já não consegue nos enxergar, por que também não se enxerga; seu reflexo no espelho, agora já fragilizado pelos anos passa-lhe pelos olhos como um mero borrão, recusando a ver a vida que Deus lhe deu. Acredito também não se preocupar com o divino que carrega em si mesmo e no passado não consegue enxergar a beleza de tuas próprias construções, pois no fundo talvez, me orgulharia de ter erguido um império de tanto amor e bondade, recheado da vida de tantos que escondem nos sorrisos que ele não tem, a indiferença constante ao sofrimento que tenta lhes perturbar a mente. Será um eterno menino, vendo no espelho sua imagem distorcida, torridamente misturada a sua imagem de criança, recusar-se-á a crescer, por que também vê no fundo da imagem e custa a perceber, a imagem cansada daqueles que lhe fizeram, com mãos enrugadas e trêmulas, olhar perdido e frágil, sem serenidade ou demonstração de amor no fundo do espelho, sempre olhando-o, sempre vigiando, punindo até por amar ou por ser amado.
Talvez um dia perceba e isso será nossa oração, que ainda que em tempos idos, quando o cansaço do trabalho realizado lhe tomar definitivamente as faces e as mãos já não responderem por si, ainda que nesse momento em que deveras, como todos nós, ser muito mais os outros do que si mesmo, possa olhar sua imagem cansada e ver no fundo do espelho, aqueles tantos, já não tão jovens, feitos de belos sorrisos e belas histórias, edificados na grandeza de seu suor; nesse dia então poderá perceber que amar é mais simples do que imaginava e que a vida é um grande aprendizado, e ainda mais, poderá ver seus frutos na árvore da vida florescendo ainda com mais beleza do que os fizeste. Recusará então as canções e as despedidas, perder-se-á na imensidão das pequenas coisas e finalmente verá a si mesmo, sem os borrões do arrependimento e da falta de perdão.
Olho uma última vez as imagens congeladas; na escuridão do quarto são as únicas coisas que tocam meus olhos e percebo mais uma vez tuas mãos marcadas pelo tempo, imputadas de um trabalho que eternamente se refaz, agora já solitárias, deixando escapar pelos dedos toda beleza pálida que nunca viu.






"Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso."
- Fernando Pessoa

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