
Minha alma parece feita da chuva que cai lá fora. Escorreu entre os muros, como gotas frágeis que se dilaceram no seu casamento com a terra, fui me escorrendo por entre seus dedos, seu corpo, tuas idéias; me deixei derramar como lágrimas de um deus, buscando o frescor do teu lábio como os orvalhos nas plantas.
No meu chover não havia trovoadas; meus sonhos eram mansos, chuva fina caindo sobre o universo te enchendo todo com a poesia da criação divina, tua imagem se perdendo em meio a gotas tão finas e joviais como o sorriso das crianças. Havia pureza em tudo... Tamanha era que eu tentava te descrever e só via miragens, no meio do sereno gelado, via a tua silhueta, teu rosto se perdendo em meio as brumas de tantas águas que se foram e que agora lentamente, voltam pro céu das minhas memórias carregadas de você.
Chover também era tristeza. Despejar minhas idéias, lavar tua alma da minha insolidez, nas tentativas frustradas de te carregar nos braços como a mãe silenciosa que habita as águas, te sequestrar, cuidar como um filho, te encher de inconsequencias e se perder no tempo como a chuva que desfalece. Mas nessa altura eu já podia ver os raios, a tempestade que se formava violenta, recheada de ventanias que te dissipavam, levava o que sobrou de mim em você pra muito longe e eu me despia, pois cria que na nudez de minha alma poderia sentir a verdade que pulsa e no pulso saber que o desejo tem nome. Era tarde. O mundo já estava decidido a se acabar e não conformado, me banhei uma última vez nesse riacho que se formou de nós; entre os raios, trovoadas e ventanias que carregavam a minha pequena chuva e transformava a minha insólita brisa, no tempo que eu confiei ser calmo, agora definhando em si mesmo, me banhei; permiti tuas histórias, compreendi tua inocência e me abriguei dentro de mim.
No último fio de tempestade me abriguei; armei minhas coisas, me escondi em mim, fiquei calado e permiti por último, como se fosse a própria deusa que ao meu controle a tempestade te levasse para sempre e ouvi, como um sussuro, as últimas gotas que insistiam em se destruir na terra.
"Eu sou o céu para as tuas tempestades, um céu partido ao meio no meio da tarde... Senhora das nuvens de chumbo...."
-Caetano Veloso
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