
Alguns sonhos precisam ser apagados pra ficarem mais bonitos. Só sabemos o quanto é bela a primavera quando no ardor do verão ou na palidez do outono clamamos por uma flor que nasça em nosso deserto. Hoje fui surpreendido meticulosamente mais uma vez pelas tramas perfeitas do destino; como atingido por um raio, sentidos maiores me alcançaram expandindo a consciência. Tenho visto que não existem verdades sólidas, caminhos definidos e o que dá beleza na vida é essa imensidão de incertezas, de trilhas sem rumo ou recursos.
São muitas as palavras capazes de mudar o presente, mais algumas poucas são mensagens prontas para atingir o futuro. Foi o que aconteceu. Quando a palidez outonal resseca nossas almas, as brumas não nos deixam enxergar em frente damos com os narizes nas paredes do destino; nossos limites se encontram pulsando em nossas mãos frágeis quando já não somos capazes de dar conta dos sentidos; são nesses sentidos esvaziados, quartos escuros, quando estamos cativos de nossas próprias doenças é que se revelam nossos sentidos mais íntimos; não existe despertar de consciência sem dúvida, não existe crescimento sem dor e mesmo em face da descrença absoluta precisamos "saber" intimamente que no meio de pedras áridas desce um remanso capaz de fazer crescer uma bela flor.
Nisso revela-se o exercício da fé. Crer nas coisas aparentemente impossíveis, enxergar além do vísivel, tentar transpor o muro de nossas próprias verdades e concepções e ouvir a voz de Deus que fala dentro de nossos corações, que de tão mansa parece que se emudeceu. Como o viajor cansado do deserto que não se finda, buscava uma resposta diante das impossibilidades; tentava assimilar os conselhos, os livros sagrados, os mitos. Tentava transpor a janela do esclarecimento, perdendo para a razão a benéfice intuitiva, deixando calar os conselhos íntimos, vagueia-se.
Acreditar é saber que existem mistérios mais profundos, que caminhos revelam-se, quando perdidos pela terra, na imensidão inteligível do céu. Eu não podia ver isso tudo de olhos abertos; era preciso fechar os olhos, se deixar conduzir, era preciso tatear o sentido que pulsava por dentro, a força imaterial que faz com que o sangue corra nas veias, que não tem nome, não tem cor, é sem explicação e existe simplesmente pela sua razão primeira. Apenas quando nos demos conta que as estrelas em nossa cabeça também nos reservam um segredo e sentimos que somente lá encontraremos nossa resposta, é que nosso espírito se sente livre para voar.
Fui voando em direção a essa intimidade; experienciar o espírito não tem sentido e só se traduz em nossas necessidades, se revela como unicidade e ao mesmo tempo cada um vê ao seu modo e eu vi, por fim, que não havia uma mentira sequer dentro do meu coração. O despertar para essa realidade me fazia tão melhor, enchia-me de um prazer que alimenta, desterra e trouxe essa relva cálida que brotava nos pedregulhos.
Não há mistério maior que olhar nos olhos de seu semelhante e ver a Deus. Enxergá-lo é um sonho tão possível que somente em nossas adversidades que isso se revela, em gestos simples, sem alardes, sem grandes dores ou arrependimentos; é somente num grito de amor que podemos fragilizar as prisões da matéria.
Foi sereno e belo, ver o amor revelar-se com tanta simplicidade, desabrochar com mansidão e esperança em meio a lágrimas de conforto e climáx de saber que em momento algum, por mais que parecesse, jamais vagamos sozinhos no deserto de nós. Um abraço rico, sincero o coração que se aquece pulsando forte revelando a grandeza da graça divina.
O amor, esse sim, vence tudo.
"Se você acredita, se você tem fé, bate sua cabeça e peça a zambi o que quiser."
- Cantiga de Umbanda
0 comentários:
Postar um comentário