quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Sonhos, sonhos são... (2)

Ele mal sabe o que eu tenho pensado. Esse blog está cheio disso - de gente que mal sabe o que eu penso. Minha arte é feita dessa inversão da realidade, em falar de alguém com a intimidade que só existe em mim, a coisa que esse alguém seja dentro da minha cabeça. Num certo grau e sentido isso me liberta um pouco desses sentimentos deveras sufocantes, tamanhos as vezes, que tenho sonhos tão belos que me carregam em luz e dúvida pelo universo de mim. Sonho com beijos que não existem, com cheiros rotos, com rostos que se abraçam e se afagam de perto, arrancam de dentro de nós o frio que existe, o eterno inverno instalado.
Como num deles, em que sonhei com uma grande tempestade; era imensa, bela, violenta e vulgar, pois queria arrancar de mim um pedaço que eu nem sabia, arrancava com violência meus pés do chão, me fazia chorar e pedir. Queria que ela passasse. Nossa casa começa a desmoronar, desfalece destruída no chão como um corpo baleado enquanto corremos para os braços da tempestade absurda. Era absurda pois haviam tantas casas, mas era justo a minha casa que ela insistia em levar; minhas coisas, minhas pessoas, meu mundo infinito materializado na tempestade inconsciente que não tinha pausa.
Mas eis que no ápice de tudo, dei-me com uma pequena cabana perdida no meio do nada inventado. Entramos. Tinha calor, roupas secas e a tempestade ainda que quisesse, não era capaz de levar uma palha da cabana pequena. Havia um aconchego único e belo, sem umidade ou odores indesejados - tinha cheiro de pão - e como em um passe de mágica éramos duas crianças em corpos adultos reencontrando a docilidade de um momento. Em aconchego e abraço, dormi com a pureza do local em seus ombros, enquanto meus dedos tateavam sua mão, seu rosto e sorria, já ignorante da tempestade que havia lá fora, mas enquanto dormia, você partiu lentamente, passo por passo, levou tudo e eu acordei estagnado no sonho cheio de realidade.
Saí correndo, procurando esguio alguém que nem lembrava o rosto, o nome, o tamanho do carinho que carregava e para minha surpresa, deparei-me do lado de fora com belos campos floridos de uma primavera que rompia em minha alma. É quimero que nos sonhos podemos trocar os afetos como as roupas, e os campos floridos me faziam chorar pela sua beleza e perfume, um encantamento, uma luz fulgurante era arrancada de cada flor, com seus brilhos próprios, cores únicas sem nada comparado nessa terra. Dentro disso, em meio a tenra experiência de refrigério, despertei, para minha surpresa, um pouco dentro da cabana, dentro da tempestade, um pouco sem alguém sem nome, querendo abrir a porta e encontrar como resposta um belo campo de flores inventadas.
Enchi meu mundo com isso; invenções, lampejos, coisas esquisitas que se configuram no escuro, dentro da minha imaginação. Uma força inerte se movimenta tentando organizar meu mundo, enquanto as dores do meu corpo reclamam de sua fragilidade, ela arranca um fio último de beleza das angústias que estão na mala. Pesadas, arrastadas de um canto pro outro, algumas divididas, fragmentadas, outras sem sentido algum; pequenos espelhos quebrados que tento juntar em palavras.
É esse sonho perdido, uma canção de amantes... Um poema vívido e tácito que é tomado como luz bruxuleante da escuridão de nós. É como um passo impossível de dar, como se estivesse sempre amarrado, uma explicação que não há palavra organizada que seja capaz de compor, não existem frases. Talvez alguns murmúrios, burburinhos dos meninos que se confidenciam no escuro pra tentar não se ver.
É meu desejo de te dizer aquilo que é impossível, pois nem eu sei o que é, essa coisa sem nome cheia de sensação, que mastiga, atrai e afasta o que somos em nós mesmos. É esse isso que nos deixa sempre nu, brinca de nos arrancar o medo enquanto deliciamo-nos de nossas indecências, até que de repente, enche de pudores e raivas, medos esquisitos, sons... Distâncias inertes, verdadeiros desertos impostos que não ousamos explorar, cheio de coisas pequenas, velhas armadilhas que nós, nesse momento e por algum motivo, não desejamos cair de novo.
A luz desse sonho é apenas o medo. Sua beleza viva de filme novo se dilui na palidez de uma fotografia, que  na realidade sabemos, se revelará na dor de não haver do lado de fora, esses campos de flores. Para encontrá-los (e aí reside dor maior ainda), deveremos olhar para dentro.

***

"É preciso acabar com esse medo de ser tocado lá no fundo. Ou é preciso que alguém me toque profundamente para acabar com isso."
- Caio Fernando de Abreu

(Não se trata de uma sequencia, mas fica aqui o link para primeira postagem:

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