quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sonhos, sonhos são(3) - Na beirada do mar...

Eu estava sentado, escutando o chocalho da ondas... Tinha o cheiro da espuma, da maresia, do mundo que se movimenta no fundo do mar. Era muita areia, uma enseada infinita sem pessoas, carros, objetos. Estava tudo apenas cheio de uma coisa invertida que eu não entendia, pois os peixes nadavam na areia imensa enquanto o mar, distante, ficava vazio. 
Alguém se aproximou lentamente. Meu coração congelava, sentia medo, frio, fome, abandono na beirada do mar bravio que me tragava sem nem mesmo me tocar e por mais medo que tivesse, começava pisar naquela areia que era gelada como a morte. O dia parecia querer nascer na noite eterna que se estendia num céu pintado de azul quase negro. Ia amanhecer nublado, ia ter chuva na beira do mar, aquela areia, cheia de peixes ia se encher de poeira e o mar ia tomar a terra e conforme eu andava, alguém me disse "não vá." Senti muito medo de não ir, pois sabia que ao mesmo tempo algo muito forte dentro de mim insistia em levar-me adiante, me lançar no mar, pois havia uma cura secreta lá dentro que só vencendo o medo eu poderia tocá-la.
Os peixes já não era simples peixes; estranhos mexilhões que se revolviam na areia como se lutassem pela vida como eu, que insistia em ir adiante certo da morte que aguardava num mar desconhecido, que pra me enganar, ficava calado, parava suas ondas. Não tinha nem uma espuma. Os peixes não eram peixes nem mexilhões, mas tornavam-se monstros pequenos e amarelados, cheios de espinhos e guelras que se agarravam nos meus pés, nas pernas, parecendo querer me arrastar pra dentro do mar e ao mesmo tempo que estavam ali, como em todo sonho, não estavam, brincando de me assustar e desaparecer.
Um alguém qualquer, sentado na beira do mar me dizendo pra não ir, ao mesmo tempo ria de mim, pois sabia toda a verdade sobre aquela cena; eu pensava em yemanjá, chamava por Nsa. Sra. das Candeias, gritava por Santa Bárbara e me lembrei que enquanto uma se escondia no céu nublado, outra ficava embaixo do mar esperando por mim, tragando para sempre a alma dos que se aventuram.
Eu estava no beira do mar sem vê-lo. Sua imensidão me cegava, me causava um estranho medo com tranquilidade; um medo de ter certeza, de descobrir o sentido quando mergulhasse, mas pensava no frio, no gelo da areia, imaginava como deveria ser cruel lançar-se naquele mar morto, frio como a distância entre as pessoas e tentava pensar ainda, como naquele fim de madrugada podia existir em algum canto do mundo um lugar assim tão vazio, distante, sem pessoas ou brincadeiras da praia. Não era uma praia. Era uma coisa cheia de areia e mar e vento, e céu nublado e medo, que me estasiava, hipnotizava para além de mim mesmo, querendo mostrar que não houvesse nada que eu pudesse fazer.
O lugar existe, está aqui dentro de mim. Me fez acordar chorando, cada gota daquela água salgada e pálida,  me fez olhar o céu sem enxergar o sol, vendo as nuvens que se enredam em torno do mar. Ele é imenso, gélido, esquisito e é difícil acreditar mas escondeu-se na minha alma o tempo todo; o que eu acreditava ser profundo era superfície e me encheu de medo de ir além. A cura está ali, dentro do universo que se esconde no mar, no meio dos peixes de coisas esquisitas, de espinhos que se grudam na pele, nas pedras lodosas do interior do mar, no sangue dos outros peixes, tragados pelos maiores. Se esconde nas Atlântidas imaginárias, nos palacetes que estão rebaixados ao fundo do mar pela fúria dos deuses. Está ali, numa redoma de vidro, guardado pelos titãs, pelas águas vivas e assombrações. Nas mãos da deusa divina, no seu coração, no seu segredo. A cura de tudo por um mergulho de coragem.

Sonhos, sonhos são... Mas se eu fechar bem os olhos, escuto, baixinho como um segredo, o cochilar das ondas.


"É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar..."
- Dorival Caymmi

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