Estava parado em uma tarde fria e acinzentada. Estava parado como o ar que havia nela, sentado a mesa, perdido como sempre nos pensamentos distantes, que de tão distantes, se perdem de modo inerte. Revirava devagar um leite em uma caneca, branco como uma nuvem, quente, com vapor que se dissipava pelo ambiente. Sentiu o cheiro do leite e chorou de emoção, lembrando dos dias em que era uma criança, um pequeno menino sentado a mesa, mal alcançava a altura dela em cadeiras de adultos e que do seu lado, como uma santa, sua mãe revirava o leite dentro da caneca, esquentava-o, gritava com ele pra que pudesse vir comer. Quis colocar os pés em cima da cadeira como fazia, olhar pra eles cheios de terra da rua, queria não sentir o frio desolador porque correra por uma tarde inteira atrás de uma bola, porque brincou de pique, porque se escondeu de brincadeira e chorou simplesmente porque esfolou os dedos. Queria não olhar no espelho porque não os alcançava, e quando olhava, ao invés de uma face cansada e temente, via apenas um par de olhos cálidos que esperava sem pressa pelo próximo dia.
Quis tomar aquele leite, correr para a TV e encontrar desenhos animados. Quis ver o pai entrando pela sala, pois mesmo que com um pouco de susto, havia toda uma garantia na sua grandeza que irrompia com seus gestos rudes, podendo olhar pro lado e ver sua mãe devota, sorrindo como sempre fazia, sem denunciar nenhum mal da vida. Poderia partir dali, receber alguns amigos, que deitar-se-iam no mesmo ambiente e brincariam com o medo que tinham dos monstros, contando histórias de horror, das pessoas que voltam dos mortos para nos assombrar, de lobisomens, de homens com cabeça de macaco, mas à saber que elas não duram, pois foram inventadas pelos adultos e que logo, embaixo de cobertores e escuridão a luz se acenderia para contar histórias de meninos levados que sobem em árvores, do dia que espiaram uma vizinha ou que ouviram uma conversa dos adultos, que de tão estranha, lhes seria um belo motivo para risadas.
Deitar-se-iam para um sono bom. Sem comprimidos ou angústias. Os pais estariam por perto, preocupados, ansiosos se ficariam bem, se sobreviveriam uma noite a mais longe deles e os meninos iam rir daquela coisa que ainda não conheciam, pois ali não havia nenhuma angústia. Luz apagada, meia luz de um abajur, um som de grilos cochilando, montanhas do lado de fora e junto com o cão que cessava de ladrar, dormiriam, para correr no outro dia, sentir frio, sede, fome, alento e no fim da tarde, em um copo de leite revirado, ele ia sentir de novo esperança.
O sonho se desmanchava nas borras, lembranças que se desfaziam na imensidão. Por Deus, que lhe restou ainda os pensamentos, as lembranças do afeto mais belíssimo, do cheiro do leite, das compotas, dos pães que se assavam no forno, das casas sem preocupações penduradas nas paredes. Da vida sem agendas, sem calendários, de acordar sem precisar saber do dia. De ver as notícias horripilantes nos jornais sem ligar, pois haveria histórias de dormir que iriam diluir essa dureza do mundo.
Apesar de tudo isso, ele vive só e se emociona quando se lembra. Desse universo, restaram alguns amigos que devem se equivocar da própria nostalgia e como ele duvidam, que tudo isso tenha sido verdade. Só podem crer, quando o vento sopra esse vapor da vida, um perfume, um gesto, quando uma mão tenra lhes toca o rosto, ou quando se ajoelham frente a uma santa para rezar. Só assim tudo acaba existindo, tão grande como um tesouro, mas pequeno o suficiente para caber em um olhar.
As vezes quando me deito, faço orações resignadas e se ouso lembrar, peço a Deus quase em silêncio que me não me tire nada disso. Desejo ter sonhos com esses dias em que corremos livres pelo mundo e que o mundo era todo nosso, que os pés se sujavam e nós agradecíamos.
Quando os sonho, sempre termino vendo o menino sorrir com desdém, por que não acredita nas prisões, nas angústias, não consegue imaginar a solidão, não se convence da tristeza ou dos desacordos; e de tanto não acreditar ele parte, desce os morros, salta mourões, envereda nas montanhas e entra finalmente, no pedaço mais singelo que existe em mim - para que eu não morra, ele fica calado me assistindo e só desperta quando pelo coração é chamado.
"... E me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir... Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade e amor..."
- Milton Nascimento

