domingo, 23 de outubro de 2011

Sonhos, sonhos são (4) - Um deus menino...

Estava parado em uma tarde fria e acinzentada. Estava parado como o ar que havia nela, sentado a mesa, perdido como sempre nos pensamentos distantes, que de tão distantes, se perdem de modo inerte. Revirava devagar um leite em uma caneca, branco como uma nuvem, quente, com vapor que se dissipava pelo ambiente. Sentiu o cheiro do leite e chorou de emoção, lembrando dos dias em que era uma criança, um pequeno menino sentado a mesa, mal alcançava a altura dela em cadeiras de adultos e que do seu lado, como uma santa, sua mãe revirava o leite dentro da caneca, esquentava-o, gritava com ele pra que pudesse vir comer. Quis colocar os pés em cima da cadeira como fazia, olhar pra eles cheios de terra da rua, queria não sentir o frio desolador porque correra por uma tarde inteira atrás de uma bola, porque brincou de pique, porque se escondeu de brincadeira e chorou simplesmente porque esfolou os dedos. Queria não olhar no espelho porque não os alcançava, e quando olhava, ao invés de uma face cansada e temente, via apenas um par de olhos cálidos que esperava sem pressa pelo próximo dia.
Quis tomar aquele leite, correr para a TV e encontrar desenhos animados. Quis ver o pai entrando pela sala, pois mesmo que com um pouco de susto, havia toda uma garantia na sua grandeza que irrompia com seus gestos rudes, podendo olhar pro lado e ver sua mãe devota, sorrindo como sempre fazia, sem denunciar nenhum mal da vida. Poderia partir dali, receber alguns amigos, que deitar-se-iam no mesmo ambiente e brincariam com o medo que tinham dos monstros, contando histórias de horror, das pessoas que voltam dos mortos para nos assombrar, de lobisomens, de homens com cabeça de macaco, mas à saber que elas não duram, pois foram inventadas pelos adultos e que logo, embaixo de cobertores e escuridão a luz se acenderia para contar histórias de meninos levados que sobem em árvores, do dia que espiaram uma vizinha ou que ouviram uma conversa dos adultos, que de tão estranha, lhes seria um belo motivo para risadas.
Deitar-se-iam para um sono bom. Sem comprimidos ou angústias. Os pais estariam por perto, preocupados, ansiosos se ficariam bem, se sobreviveriam uma noite a mais longe deles e os meninos iam rir daquela coisa que ainda não conheciam, pois ali não havia nenhuma angústia. Luz apagada, meia luz de um abajur, um som de grilos cochilando, montanhas do lado de fora e junto com o cão que cessava de ladrar, dormiriam, para correr no outro dia, sentir frio, sede, fome, alento e no fim da tarde, em um copo de leite revirado, ele ia sentir de novo esperança.
O sonho se desmanchava nas borras, lembranças que se desfaziam na imensidão. Por Deus, que lhe restou ainda os pensamentos, as lembranças do afeto mais belíssimo, do cheiro do leite, das compotas, dos pães que se assavam no forno, das casas sem preocupações penduradas nas paredes. Da vida sem agendas, sem calendários, de acordar sem precisar saber do dia. De ver as notícias horripilantes nos jornais sem ligar, pois haveria histórias de dormir que iriam diluir essa dureza do mundo.
Apesar de tudo isso, ele vive só e se emociona quando se lembra. Desse universo, restaram alguns amigos que devem se equivocar da própria nostalgia e como ele duvidam, que tudo isso tenha sido verdade. Só podem crer, quando o vento sopra esse vapor da vida, um perfume, um gesto, quando uma mão tenra lhes toca o rosto, ou quando se ajoelham frente a uma santa para rezar. Só assim tudo acaba existindo, tão grande como um tesouro, mas pequeno o suficiente para caber em um olhar.

As vezes quando me deito, faço orações resignadas e se ouso lembrar, peço a Deus quase em silêncio que me não me tire nada disso. Desejo ter sonhos com esses dias em que corremos livres pelo mundo e que o mundo era todo nosso, que os pés se sujavam e nós agradecíamos.
Quando os sonho, sempre termino vendo o menino sorrir com desdém, por que não acredita nas prisões, nas angústias, não consegue imaginar a solidão, não se convence da tristeza ou dos desacordos; e de tanto não acreditar ele parte, desce os morros, salta mourões, envereda nas montanhas e entra finalmente, no pedaço mais singelo que existe em mim - para que eu não morra, ele fica calado me assistindo e só desperta quando pelo coração é chamado.

"... E me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir... Amizade, palavra, respeito, caráter, bondade e amor..."
- Milton Nascimento

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sonhos, sonhos são(3) - Na beirada do mar...

Eu estava sentado, escutando o chocalho da ondas... Tinha o cheiro da espuma, da maresia, do mundo que se movimenta no fundo do mar. Era muita areia, uma enseada infinita sem pessoas, carros, objetos. Estava tudo apenas cheio de uma coisa invertida que eu não entendia, pois os peixes nadavam na areia imensa enquanto o mar, distante, ficava vazio. 
Alguém se aproximou lentamente. Meu coração congelava, sentia medo, frio, fome, abandono na beirada do mar bravio que me tragava sem nem mesmo me tocar e por mais medo que tivesse, começava pisar naquela areia que era gelada como a morte. O dia parecia querer nascer na noite eterna que se estendia num céu pintado de azul quase negro. Ia amanhecer nublado, ia ter chuva na beira do mar, aquela areia, cheia de peixes ia se encher de poeira e o mar ia tomar a terra e conforme eu andava, alguém me disse "não vá." Senti muito medo de não ir, pois sabia que ao mesmo tempo algo muito forte dentro de mim insistia em levar-me adiante, me lançar no mar, pois havia uma cura secreta lá dentro que só vencendo o medo eu poderia tocá-la.
Os peixes já não era simples peixes; estranhos mexilhões que se revolviam na areia como se lutassem pela vida como eu, que insistia em ir adiante certo da morte que aguardava num mar desconhecido, que pra me enganar, ficava calado, parava suas ondas. Não tinha nem uma espuma. Os peixes não eram peixes nem mexilhões, mas tornavam-se monstros pequenos e amarelados, cheios de espinhos e guelras que se agarravam nos meus pés, nas pernas, parecendo querer me arrastar pra dentro do mar e ao mesmo tempo que estavam ali, como em todo sonho, não estavam, brincando de me assustar e desaparecer.
Um alguém qualquer, sentado na beira do mar me dizendo pra não ir, ao mesmo tempo ria de mim, pois sabia toda a verdade sobre aquela cena; eu pensava em yemanjá, chamava por Nsa. Sra. das Candeias, gritava por Santa Bárbara e me lembrei que enquanto uma se escondia no céu nublado, outra ficava embaixo do mar esperando por mim, tragando para sempre a alma dos que se aventuram.
Eu estava no beira do mar sem vê-lo. Sua imensidão me cegava, me causava um estranho medo com tranquilidade; um medo de ter certeza, de descobrir o sentido quando mergulhasse, mas pensava no frio, no gelo da areia, imaginava como deveria ser cruel lançar-se naquele mar morto, frio como a distância entre as pessoas e tentava pensar ainda, como naquele fim de madrugada podia existir em algum canto do mundo um lugar assim tão vazio, distante, sem pessoas ou brincadeiras da praia. Não era uma praia. Era uma coisa cheia de areia e mar e vento, e céu nublado e medo, que me estasiava, hipnotizava para além de mim mesmo, querendo mostrar que não houvesse nada que eu pudesse fazer.
O lugar existe, está aqui dentro de mim. Me fez acordar chorando, cada gota daquela água salgada e pálida,  me fez olhar o céu sem enxergar o sol, vendo as nuvens que se enredam em torno do mar. Ele é imenso, gélido, esquisito e é difícil acreditar mas escondeu-se na minha alma o tempo todo; o que eu acreditava ser profundo era superfície e me encheu de medo de ir além. A cura está ali, dentro do universo que se esconde no mar, no meio dos peixes de coisas esquisitas, de espinhos que se grudam na pele, nas pedras lodosas do interior do mar, no sangue dos outros peixes, tragados pelos maiores. Se esconde nas Atlântidas imaginárias, nos palacetes que estão rebaixados ao fundo do mar pela fúria dos deuses. Está ali, numa redoma de vidro, guardado pelos titãs, pelas águas vivas e assombrações. Nas mãos da deusa divina, no seu coração, no seu segredo. A cura de tudo por um mergulho de coragem.

Sonhos, sonhos são... Mas se eu fechar bem os olhos, escuto, baixinho como um segredo, o cochilar das ondas.


"É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar..."
- Dorival Caymmi