Ruas, tortas ruas nas quais eu virava. Uma por uma, revirava a luz e o frio da cidade. Sentia meu coração tacitamente aquecido, lento, eu sorria pelas esquinas de uma cidade de luz matinal. Era perfeita, lá não havia dor ou solidão, o coração estava sempre aquecido - era sem dúvida a coisa mais bonita que luta por sobreviver dentro de mim. É meu oásis em meio a paisagem morta, a flor do cerrado pela qual eu caminhava.
Esquina por esquina dobrei, caí no antiquário estranho e empoeirado. Eu era guiado por aquela estranha mulher. Mandou que eu me abaixasse naquele lugar desconhecido e para minha surpresa haviam tantos objetos meus escondidos embaixo do móvel. Cachimbos, incensos, velas e toda sorte de artefatos mágicos perdidos ali como um tesouro, acima, nas belas portas de madeira envelhecida, abertas, haviam tantas outras coisas que a meu bel-prazer poderia escolher. Mais tantos outros artigos magísticos, belamente embrulhados parece que esperando pelo dono que era eu.
Escolhi um tanto de objetos, coloquei numa sacola. Era como se estivesse em outra dimensão, pois apesar de reconhecê-los, eles só existem ali dentro do meu sonho, não se encontram nos comércios ou nas esquinas, não existem para outra pessoa que não fosse eu. A velha mulher límpida de luz me abraçou, beijou minha testa numa riqueza de detalhes tremenda enquanto saía deixando a porta aberta. Eis que entra aquele coração cheio de luz.
Você estava belo no meu sonho; era sorridente, moço forte e bem apanhado que brilhava para as meninas dos meus olhos. Ali no seu sorriso sincero eu entendia tal qual beleza emanava essa cidade, de onde vinha a luz que ofuscava meus olhos nas ruas. Descobri por que apesar do frio, a pele se desmanchava em brasas, já que era cheios de braços a cidade nos quais me abraçavam naquele instante. Me envolvi no teu perfume, em tua pele, no meu sonho inacabável reclinei minha cabeça no teu ombro e partimos naquele lugar que era tão nosso. Conversávamos livremente, entre abraços de sua pele macilenta e tuas mãos no tocante do meu peito, envolvi-lhe num singelo beijo questionável na face. No meu sonho você não ruborizava e ao contrário, trouxe-me para junto de ti e com verdade beijou-me longamente naquela manhã de inverno.
Pela primeira vez eu senti um beijo por dentro. Sentia seu toque doce, meus olhos revirarem nas órbitas, sentia teu carinho tão puro e eu pensava que maldade podia haver na beleza daquele beijo. Na cidade luz não havia. Só havia nossos sonhos, meu antiquário, meus objetos, tua grandeza que se desfazia dentro de mim pelo seu beijo, que de tão grande, me entregava sua alma como um presente, pois a minha, já por muito era tua. Sem confusões ou dores partimos.
Eis que na esquina mais bela, na ladeira de pedras acesas pelo sol matutino, vi caminhar em nossa direção minha deusa sorridente. Eu entendia por fim que aquele era seu presente e nos meus pensamentos, sem que você ouvisse, eu falava com ela. Pedia a ela pra manter vivo esse lugar belíssimo e tranquilo, enquanto te olhava ela meneava com a cabeça entendendo que não era pra te sequestrar de dentro de mim. Pedi a ela que o sonho fosse sonho para alegrar meu dia e que a luz da cidade fosse minha esperança, que seu sorriso fosse o remédio da minha dor e os teus braços fossem a força que necessito pra seguir. E no meio dos meus pedidos singelos, o sorriso de minha deusa íntima fez-nos partir de volta, nos enchendo em um facho de luz, desperto em fim.
Fizeste do meu coração o lugar mais seguro minha senhora. Lá escondo os segredos mais lindos que não conto com medo que se desmanchem e que em meio a dúvida sombria e a falta de esperança, seja ela a força benigna que traz-me de volta. Odoyá que esteja comigo todos os dias e em meio ao sol escaldante, guia-me de volta ao meu sonho cheio de amor e alento. Leva-me para o aconchego e esperança, faz-me sempre experimentar a docilidade que sobrevive nas profundezas de mim. Pois tua grandeza minha mãe, tão cheias de provas e entendimentos trouxe hoje em minha porta aquele príncipe mais belo, que do teu sorriso fez um ribeirão em que pude refrescar a secura dos meus dias. Era o sorriso mais belo, mais profundo. Naquele pequeno, também estava eu.
"Vem do luar no céu, vem do luar. No mar coberto de flor, meu bem
de Iemanjá, de Iemanjá a cantar o amor."
- Baden e Vinícius

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